Miguel Pinto
Miguel Pinto
06 Out, 2026 - 11:00

Peste pneumónica: o que se sabe sobre a doença e o caso na Rússia

Miguel Pinto

Um caso suspeito na Sibéria reacendeu o receio da peste pneumónica. Saiba o que é, como se transmite, se tem cura e qual é o risco real.

peste penumónica

O nome basta para arrepiar. Na memória coletiva, a peste é sinónimo de Peste Negra, de cidades devastadas e de séculos de medo. Nos últimos dias, a morte de uma trabalhadora de um instituto de investigação na Sibéria trouxe o termo “peste pneumónica” de volta às manchetes e às redes sociais.

Convém separar o que é facto do que é alarme. Perante notícias como esta, o medo espalha-se mais depressa do que qualquer bactéria. E basta juntar a palavra “peste” a um laboratório, a uma quarentena e a uma região remota para que as redes sociais façam o resto.

Nesta fase, muitos dos pormenores vêm de media locais, o diagnóstico não foi confirmado pelas autoridades e não há indícios de transmissão entre pessoas. Partilhar rumores, capturas de ecrã sem origem ou comparações apressadas com a pandemia de COVID-19 alimenta uma ansiedade que a informação disponível não justifica.

Isto não significa desvalorizar o assunto. A peste pneumónica é uma doença grave e deve ser levada a sério pelas autoridades de saúde, que estão a fazê-lo. Mas levar a sério passa por acompanhar fontes fiáveis, como a Organização Mundial da Saúde, a Direção-Geral da Saúde ou a linha SNS 24.

Peste pneumónica: perguntas e respostas

peste

Muito embora ainda subsistam uma série de dúvidas quanto ao que aconteceu, ou está a acontecer, já há alguma questões levantadas que merecem resposta.

O que se passou na Rússia?

Uma funcionária de um instituto que estuda a peste morreu na região de Irkutsk, na Sibéria, e há suspeitas de peste pneumónica. Isto ainda não está confirmado.

Segundo relatos de media locais, a jovem teria partido um tubo de ensaio com o agente da doença. Os meios de comunicação russos sugeriram que poderia ter contraído peste pneumónica, mas as autoridades de saúde não confirmaram o diagnóstico.

A entidade reguladora russa, a Rospotrebnadzor, referiu apenas uma “pneumonia de origem desconhecida”.

Por precaução, quase 200 pessoas foram colocadas sob observação médica. Também cinco hospitais da zona e dezenas de funcionários do instituto ficaram em quarentena. A Comissão Europeia disse estar a acompanhar a situação “muito de perto”.

O que é a peste pneumónica?

É a forma da peste que ataca os pulmões. É causada pela bactéria Yersinia pestis e é considerada a mais grave de todas.

A bactéria vive habitualmente em pequenos mamíferos e nas respetivas pulgas. A doença existe em três formas, todas provocadas pelo mesmo microrganismo: a bubónica, a septicémica (em que a bactéria entra na corrente sanguínea) e a pneumónica, que ataca os pulmões.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) descreve a forma pneumónica como a mais virulenta.

Qual é a diferença entre peste bubónica e peste pneumónica?

A bubónica transmite-se sobretudo por picadas de pulgas infetadas e não passa de pessoa para pessoa. A pneumónica pode passar.

Na peste bubónica, a bactéria entra pela pele e provoca inchaço doloroso dos gânglios, os chamados “bubões”. A pneumónica instala-se nos pulmões.

Pode surgir diretamente, por inalação ou depois de uma peste bubónica não tratada se espalhar até aos pulmões.

Como se transmite a peste pneumónica?

vírus peste

Através de gotículas respiratórias, em contacto próximo com uma pessoa doente.

Segundo o investigador Simon Clarke, da Universidade de Reading, a forma pneumónica pode passar entre pessoas através de gotículas respiratórias durante um contacto próximo.

O período de incubação é curto, normalmente entre um e três dias, segundo o CDC norte-americano.

Não se trata de uma doença que se apanhe por uma simples passagem na rua ou num transporte público sem contacto com um doente.

Quais são os sintomas?

Febre alta, tosse, dificuldade em respirar, dor no peito e grande fraqueza, com agravamento muito rápido.

Pode surgir expetoração com sangue, dores de cabeça e mal-estar geral. Os sintomas aparecem de forma abrupta e evoluem depressa, o que torna o diagnóstico precoce decisivo.

Estes sinais são comuns a muitas pneumonias, por isso só exames laboratoriais permitem identificar a doença.

A peste pneumónica tem cura?

Sim, se for tratada a tempo. Sem tratamento, é quase sempre fatal.

Segundo a OMS, a doença pode ser fatal em 18 a 24 horas após o início se não for tratada, mas antibióticos comuns podem curá-la se forem administrados cedo. Estes antibióticos devem ser dados nas primeiras 24 horas após o aparecimento dos sintomas.

Quem esteve em contacto próximo com um doente pode receber antibióticos preventivos. A OMS indica que os profissionais expostos devem fazer profilaxia com antibióticos durante sete dias, ou enquanto durar a exposição.

Os doentes devem ser isolados e tratados por equipas com equipamento de proteção.

As pessoas devem evitar a automedicação, incluindo o uso de antibióticos, sem diagnóstico de um profissional de saúde

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Quão perigosa é, afinal?

É muito perigosa para quem a contrai e não recebe tratamento, mas o risco para a população em geral é baixo quando há diagnóstico rápido e isolamento.

Para o doente, o quadro é sério. Sem tratamento, a taxa de mortalidade da forma pneumónica aproxima-se dos 100%.

Há, porém, razões para manter a calma. A doença responde a antibióticos comuns, que existem em grande quantidade, a transmissão exige contacto próximo, ao contrário de outras infeções respiratórias que se espalham com mais facilidade e os casos podem ser identificados e os contactos acompanhados de forma dirigida.

A experiência recente confirma que a doença é controlável com resposta rápida. Em 2017, Madagáscar enfrentou um surto em que a maioria dos casos era de peste pneumónica, e a OMS enviou milhões de doses de antibióticos.

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Existe risco para Portugal e para a Europa?

Com a informação disponível, o caso está circunscrito a uma região da Rússia e a situação está a ser acompanhada pelas autoridades. Os episódios mencionados são localizados e as medidas de quarentena e observação já estão em curso.

A Comissão Europeia afirmou que está pronta para coordenar uma resposta entre os Estados-membros, se for necessário. Para informação oficial em Portugal, a Direção-Geral da Saúde (DGS) e a linha SNS 24 (808 24 24 24) são as fontes de referência.

Quem tenha viajado recentemente para uma zona afetada e desenvolva febre e sintomas respiratórios deve contactar o SNS 24 e informar os profissionais de saúde do historial de viagens, em vez de se dirigir diretamente a uma sala de espera.

Como se prevenir da peste?

Evitando o contacto com doentes e com animais ou pulgas potencialmente infetados, e procurando ajuda médica logo aos primeiros sinais.

Em zonas onde a doença é endémica, convém evitar o contacto com roedores e carcaças de animais, usar repelente contra pulgas e não manipular animais doentes.

Perante um caso suspeito, as medidas essenciais são o isolamento, o uso de equipamento de proteção por quem trata o doente e a profilaxia dos contactos próximos. Em Portugal, não há motivo para medidas especiais no dia a dia.

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