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Isadora Freitas
Isadora Freitas
07 Ago, 2018 - 17:22

Postais do Camboja: nas montanhas à chuva

Isadora Freitas

A despedida aproxima-se e, por isso, mais do que nunca, tem sido tempo de explorar o desconhecido. Phnom Kulen e Kampot, dois imensos tesouros em terras Khmer.

Postais do Camboja: nas montanhas à chuva

Querida C.,

Como te encontras por terras de auroras boreais? Hoje escrevo-te sobre viagens que me souberam despertar todos os sentidos. Escrevo-te porque teria sabido a muito vivê-las contigo.

Por vezes, o Mundo desalinha-se de tal forma que tudo parece estar alinhado. Desalinha-se em buracos na estrada, montanhas verdejantes, autocarros antigos e percursos tortuosos. Alinha-se em sorrisos, braços abertos e brindes à chuva. Passei os últimos dois fins de semana a explorar território desconhecido no Camboja, na companhia de quem aqui coleccionou já uma vida inteira.

Em meados de Julho, rumei a Phnom Kulen, uma montanha sagrada a 50 quilómetros de Siem Reap, onde são muitos os Cambojanos que rezam junto a um Buddha imenso. Fui num Domingo de manhã com o Lucky, o gerente do Hostel onde passo as tardes, que nasceu e viveu grande parte da sua infância numa das aldeias naquele topo do Mundo. Partimos cedo na sua mota de dimensões generosas que parecia escapar às leis da gravidade. Subimos a montanha, sem desacelerar nas subidas ou parar quando a chuva nos cegava os sentidos. Atravessámos caminhos que não era caminhos, com pedras traiçoeiras, água até aos joelhos, lama espessa e troncos metediços.

Postais do Camboja

Visitámos um templo pleno de locais com incenso nas mãos, parámos para comer um snack gelatinoso de um verde intenso, mergulhei nas águas geladas de uma majestosa cascata, fizemo-nos ao infinito de uma caverna onde se aninhavam vários morcegos e um pequeno altar. Terminámos numa aldeia no topo da montanha, a almoçar na companhia da vasta família do Lucky, com quem procurei praticar o meu pouco Khmer. Regressei a Siem Reap com as mãos calejadas e o espírito pleno de uma sensação de invencibilidade.

Postais do Camboja
Postais do Camboja
Postais do Camboja

Na quinta-feira da semana seguinte, fiz-me a Kampot. Iniciei a viagem às oito da noite e, após uma curta paragem em Phnom Penh e dez horas de caminho, o autocarro decidiu descansar em plena Estrada Nacional, de piso molhado e plena de buracos pouco tímidos. Três homens abraçaram o desafio de concertar o veículo cansado enquanto, durante três horas, os passageiros se aninharam numa pequena loja à beira da estrada, a conversar com locais sobre futebol e rice wine. Três horas até que, inocente, me tenha lembrado de perguntar onde nos encontrávamos. Mostraram-me o mapa e sorri – estava a poucos quilómetros de Kampot, o meu destino final. Peguei na mochila e corri para a estrada quando vi passar um tuk-tuk. Perguntei quanto ficaria a viagem até à cidade. Um dólar. Saltei, sem perder tempo, para o banco da frente e, ao meu lado, sentou-se um outro viajante de terras distantes ainda meio adormecido.

Postais do Camboja

Uma vez na cidade, procurei no Maps.Me o Hostel onde iria ficar – Park Inn – e rumei a pé pela estrada turbulenta. Cheguei e depressa marquei uma nova viagem de autocarro, desta vez para Kep, junto ao mar, na esperança de começar a repôr as energias roubadas pela viagem acidentada. Estranhamente, a água salgada não me fez sentir em casa, como sempre faz. Kep é uma cidade pequena que, na época das chuvas, se encontra vazia de gente e, por isso, algo vazia de Alma. Caminhei à chuva junto ao mar até ao famoso mercado de caranguejos, onde estes são comprados vivos e cozinhados ali mesmo, e esperei pelo regresso com um delicioso sumo de laranja e maracujá nas mãos.

Postais do Camboja

Ao final da tarde, já em Kampot, percorri a beira-rio e vi espreitar o sol, que imprimia um tom dourado nos barcos ali pousados. Não muito longe, cruzei caminho com um grupo de três Francesas que me encheu o coração. Emanuelle e Juliette, mãe e filha (uma nos seus 50, a outra com 20 anos) e Isabel, a melhor amiga de Emanuelle. Falámos sobre tudo e sobre nada, brindámos à aleatoriedade das coisas e à idade ser um estado de espírito. No final, saltámos de roupa para a piscina do Hostel onde estavam alojadas em jeito de despedida.

Sábado rumei a Bokor, uma montanha com uma paisagem incrível e edifícios com História. Por causa da chuva, fi-lo numa carrinha, com outros viajantes, e não de mota, sozinha. Ainda assim, tudo soube a aventura – as cascatas, o chamado Palácio Negro do Rei Sihanouk, o velho casino agora transformado em Hotel, a Igreja Católica ali construída pelos Franceses e agora abandonada, com marcas de balas nas paredes rabiscadas. Uma montanha já mística que, com a chuva e o nevoeiro, parecia ser a guardiã de segredos infinitos.

Postais do Camboja
Postais do Camboja

Regressar a Siem Reap foi regressar a casa. Regressar à minha zona de conforto. À cidade que me pareceu tão grande quando nela caminhei pela primeira vez e onde agora, em cada esquina, vejo caras conhecidas. O coração começa a ficar pequenino com a ideia de despedida. A Alma começa a dizer adeus a todas as pequenas coisas que encontro pelas ruas. O cérebro, esse, insiste em chamar a tudo isto apenas, somente, só mais um “até já”.

Espero-te bem, feliz, sorridente, com a perspectiva de umas férias ao Sol, C.

Um imenso abraço, com Saudade.

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