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Luana Freire
Luana Freire
20 Jul, 2022 - 16:41

Saúde mental das crianças não é tabu. Pode ser um problema grave

Luana Freire

Saúde mental em Portugal é tabu nacional. E como anda a saúde mental das nossas crianças? Vamos entender mais sobre este tema.

O direito à saúde é um dos pilares fundamentais ao bom desenvolvimento dos mais novos – e o direito à saúde mental das crianças deve, de igual forma, estar no centro das preocupações de pais, formadores e outros interlocutores.

Lembremos: o prato à mesa, a roupa lavada, o sapato na medida, a prenda de aniversário, as férias de verão marcadas ou uma ida ao parque aos domingos são tão importantes quanto o bem-estar psicológico dos mais novos, que envolve mais do que o investimento financeiro e uma agenda preenchida.

Vamos falar sobre este tema e ajudar a quebrar tabus: entenda porque a saúde do corpo e da mente começa desde à primeira infância, fique a saber como reconhecer alguns sinais de problemas comportamentais e emocionais na infância, e veja quando e onde procurar ajuda.

Saúde mental: um tabu nacional

É sabido que as questões do foro psiquiátrico são ainda um grande tabu em Portugal. Quem nunca ouviu alguém dizer, envergonhadamente, que um filho precisou do acompanhamento de um psicólogo? Ou viu o próprio paciente encolher-se publicamente ao falar do tema? Ou, pior, quem nunca soube de uma situação em que o apoio especializado e aconselhado foi negado, por se relutar contra a realidade?

É daí, dessas questões sociais que envolvem a saúde mental, que tantas vezes persistem as situações de negação quando algo não vai bem. Os receios e o sentimento de vergonha levam à fuga da realidade, e não falamos apenas à fuga das situações problemáticas, em si, mas também dos tratamentos que poderiam evitar questões importantes e que ainda hoje são banalizadas precocemente. Estamos a falar de quadros de ansiedade, de depressão ou de distúrbios alimentares.

Saúde mental das crianças

Quando o assunto é a questão da saúde mental das crianças – e dos jovens – ainda há muito o que se decifrar, mas a verdade é que este tema envolve urgências que já estão refletidas em números que se revelam alarmantes.

Somente em 2019, Portugal registou 38 mortes por lesões autoprovocadas (suicídios) entre jovens com idades entre os 15 e 24 anos – mas já ouve óbitos, em anos anteriores, de crianças abaixo desta faixa etária.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), estima que aproximadamente 20% das crianças e jovens de todo o mundo apresentam algum problema emocional, de comportamento ou de desenvolvimento. Um em cada oito desses menores apresenta algum tipo de perturbação mental.

Em Portugal, estudos revelaram que a maior causa da degradação na qualidade de vida de crianças e jovens está enraizada nas questões de perturbações mentais e de comportamento.

Entre os sintomas mais comuns das gerações atuais estão o sentimento de insatisfação, a tristeza, o stress e a sensação de mal-estar psicológico. Estes últimos números foram divulgados pela OMS, com base no estudo Health Behaviour in School-aged Children, que envolveu 6 mil adolescentes portugueses.

A saúde do corpo e da mente tem início na infância

Sabia que a ciência já consegue demonstrar que a nossa saúde está diretamente relacionada com as vivências dos primeiros anos de vida? Há estudos que comprovam que o bem-estar geral do nosso corpo e mente resulta de um processo que tem início mesmo antes de nascer, ainda na vida intrauterina.

Estamos a falar de saúde física, hábitos alimentares, aptidão para atividades físicas e, de igual forma, sobre o nosso desenvolvimento sócio e psico-afetivo, ou seja, a nossa saúde mental e emocional.

É nos primeiros anos das nossas vidas, ali pela primeira infância, até aos três anos de idade, que crescemos e desenvolvemos mais rapidamente, aprendemos a caminhar, a falar, a comer e a socializar, ao mesmo tempo em que somos mais dependentes e vulneráveis. A forma como tudo isto acontece determina como crescemos, desde bebés a adultos, e qual será a nossa condição física e mental.

O cérebro de um bebé ou de uma criança, e até mesmo de adolescentes, está repleto de plasticidade e em plena fase de arquitetura. São as experiências mais precoces que modulam as respostas do organismo e, até, de alguns sistemas funcionais, como o cardiovascular e o neuroendócrino.

A forma como tudo se constrói, desde cedo, tem influência comprovada sobre o equilíbrio mental, as competências cognitivas de aprendizagem, a boa socialização, a capacidade da empatia e a própria autorregulação individual – tão fundamental para a boa saúde mental de toda a vida.

Diante do que a ciência já sabe, torna-se numa urgência o debate sobre a saúde mental das crianças, desde à gravidez até aos anos de infância e juventude. Acompanhamento, vigilância e valorização das situações e sentimentos são palavras de ordem para pais, formadores e quaisquer outros interlocutores que façam parte da vida dos mais novos, como os seus pares em contexto escolar e social.

Identificar problemas emocionais em crianças e jovens?

Os pais e formadores devem estar atentos aos sinais de alteração do humor, das rotinas e dos comportamentos básicos das crianças e jovens – especialmente quando as crianças em causa têm menos de 12 anos. Trata-se de uma altura em que não sabem expressar de forma verbal aquilo que sentem ou pelo que estão a passar.

Nos mais novos é interessante analisar possíveis alterações no padrão de desenhos ou de jogo, assim como do sono ou da alimentação. Também é fundamental agir precocemente diante de uma mudança de comportamento que aponte para o isolamento familiar e social, ou para sinais de maior agressividade – fatores de alerta especialmente importantes de observar nos jovens. A queda na performance escolar é outro pormenor que deve ser observado com atenção.

Comportamentos inapropriados, como desrespeito aos pais, crises de choro ou regressão em competências já adquiridas podem indicar que algo não está bem.

TDAH, ansiedade, distúrbios alimentares, síndrome do pânico e outros distúrbios potencialmente prejudiciais à saúde mental das crianças manifestam-se de maneira bastante semelhante à depressão.

O adoecer psiquiátrico é uma realidade para os mais novos, que pode ter impacto por toda a sua vida adulta. As crianças e jovens podem sofrer de ansiedade, depressão e outros distúrbios emocionais, apresentando os mesmos sintomas de um adulto. O que diferencia, face aos mais crescidos, é a ausência de maturidade que os impede de conseguir transformar em palavras aquilo que estão a sentir.

A importância do acompanhamento psicológico

Mental Health Foundation, instituição internacional que atua na área da saúde mental, estima que até 70% das crianças e dos jovens que sofrem com algum problema de saúde mental não recebem tratamento na idade adequada. Basicamente, tornam-se adultos que iniciam as suas vidas adultas com problemas emocionais não resolvidos atempadamente, que já tiveram início na infância e na adolescência.

Assim, perpetuamos, com base nos nossos tabus sociais, comportamentos negativos – e este prolongar do problema atravessa a questão pessoal e individual, podendo muitas vezes interferir com questões coletivas, nas relações adultas de diversas naturezas.

Quando e a quem pedir ajuda

Ao menor sinal de alarme, a ajuda especializada deve ser uma carta na manga de pais e formadores. Muitas vezes, quadros de desconforto emocional nas crianças e jovens são encarados como um capricho, falta de vontade, preguiça ou, até, fraqueza física.

Nem sempre uma birra é apenas uma birra, tal como nem sempre será mais do que isso. Importa conhecer a criança nas suas mais diversas fases de desenvolvimento, como forma de saber estar atento ao que é típico ou atípico no seu comportamento, ao longo do seu crescimento e amadurecimento.

A infância deveria ser um lugar sagrado, livre de tristezas, preocupações e tensões que não lhe pertencem. Muitas questões e impasses, comportamentais e emocionais, podem ser tratados de forma simples – através da psicoterapia infantil, por exemplo.

Se existir uma preocupação acrescida diante de qualquer sinal de alteração – ações, reações, hábitos ou rotinas – os responsáveis devem pedir aconselhamento a especialistas.

O pediatra, um pedopsiquiatra ou um psicólogo podem ajudar a compreender melhor o seu filho – e, seguramente, vão saber orientar a criança para os cuidados especializados mais aconselhados.

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