Cláudia Pereira
Cláudia Pereira
10 Ago, 2026 - 16:00

Ser médico em Portugal demora 13 anos. Vale a pena?

Cláudia Pereira

Saiba como ser médico em Portugal: vagas do curso em 2026, custo no ensino público e privado, internato e quanto ganha em cada fase da carreira médica.

Ser médico em Portugal exige, em média, entre 10 e 13 anos de formação depois do 12.º ano. É um dos percursos mais longos do ensino superior português e também um dos mais competitivos, com apenas 1.656 vagas no concurso nacional de acesso em 2026.

O interesse mantém-se elevado por um motivo simples: Portugal continua com falta de médicos em várias especialidades e regiões, sobretudo em medicina geral e familiar. Quem entra hoje no curso sabe que, no final, há emprego praticamente garantido no Serviço Nacional de Saúde (SNS) ou no privado.

Mas antes de decidir seguir Medicina, vale a pena perceber os números concretos: quanto tempo demora, quanto custa e quanto se ganha em cada fase, de estudante a especialista.

Quanto tempo demora a tornar-se médico em Portugal

Tornar-se médico em Portugal demora entre 10 e 13 anos após o 12.º ano, seis anos de Mestrado Integrado em Medicina, um ano de internato de formação geral e três a seis anos de formação especializada, consoante a área escolhida.

O curso em si já é um Mestrado Integrado de 360 ECTS, sem grau intermédio de licenciatura. Só depois de terminar é que o recém-formado pode candidatar-se ao internato médico, que junta um ano de formação geral obrigatória a um período de especialização que varia consoante a área: por exemplo, medicina geral e familiar demora três anos, enquanto especialidades cirúrgicas podem chegar aos seis. O exercício autónomo da profissão só é reconhecido depois de concluído, com aproveitamento, o primeiro ano de formação geral.

Como entrar no curso de medicina: vagas e notas em 2026

O acesso ao curso público faz-se pelo concurso nacional, com provas de ingresso em Biologia e Geologia e Física e Química (e, nalgumas faculdades, também Matemática). A nota final soma 50% da média do secundário e 50% das provas de ingresso.

Em 2026, o número de vagas subiu para 1.656, mais 62 do que em 2025, graças à abertura de um novo curso na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e ao reforço de vagas em Coimbra. Ainda assim, a concorrência mantém-se feroz: na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, que oferece 245 vagas na 1.ª fase, a nota do último colocado em 2025 foi de 185,3 pontos, numa escala até 200.

O internato médico: da formação geral à especialidade

Terminado o curso, o próximo obstáculo é a prova nacional de acesso ao internato médico, um exame que ordena os candidatos e determina quem consegue vaga na especialidade pretendida, nem sempre a primeira escolha.

Segue-se o internato propriamente dito: um ano de formação geral, com rotação por vários serviços hospitalares, e depois a formação especializada, de três a cinco anos consoante a especialidade. Durante este período, o médico interno já recebe salário e tem direito a 22 dias úteis de férias remuneradas por ano. É também nesta fase que muitos internos reforçam o rendimento com trabalho suplementar em serviços de urgência.

Quanto custa tirar Medicina: público vs. privado

Esta é a diferença que mais pesa no orçamento familiar. No ensino público, a propina ronda os 697 euros por ano, o valor máximo legal fixado para licenciaturas e mestrados integrados em 2025/2026. Ao longo dos seis anos de curso, isso representa cerca de 4.200 euros no total.

No ensino privado, os valores disparam. Na Faculdade de Medicina da Universidade Católica, em Sintra, a propina ronda os 18.500 euros por ano. Ao longo dos seis anos de curso, o total ultrapassa os 100 mil euros. A esta diferença somam-se ainda os custos de alojamento, alimentação e material, sobretudo para quem estuda fora da área de residência.

Quanto ganha um médico em Portugal

Os valores variam consoante a categoria, o regime de trabalho (40h, 42h com dedicação exclusiva ou dedicação plena) e a posição na carreira, mas há alguns pontos de referência úteis.

Um médico interno em formação especializada, na 2.ª posição remuneratória, passou de 2.030 euros mensais em 2023 para 2.460 euros em 2025, com a subida de nível atribuída pelo acordo entre o Ministério da Saúde e o Sindicato Independente dos Médicos (SIM). Já um médico especialista (assistente) na 1.ª posição, em regime de dedicação exclusiva, evoluiu de 3.281 euros em 2024 para 3.654 euros previstos em 2026.

No topo da carreira, os valores sobem significativamente, mas variam muito consoante a posição remuneratória e o regime de trabalho, por isso evitamos aqui um número único que possa induzir em erro. Os valores indicados referem-se ao SNS e não incluem urgências, que podem acrescentar vários milhares de euros por ano, nem a atividade em clínicas privadas, cada vez mais comum como complemento de rendimento.

Vale a pena o investimento?

A conta final depende do caminho escolhido. Quem entra no ensino público paga menos de 5 mil euros pelo curso e começa a ganhar salário logo no internato. Quem opta pelo privado investe seis dígitos antes do primeiro ordenado, uma decisão que só compensa a longo prazo, com uma carreira de décadas pela frente.

Antes de avançar com a candidatura, compare as vagas e notas de acesso de 2026 em cada faculdade e simule o impacto da propina no orçamento familiar, sobretudo se a opção recair sobre o ensino privado.

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