Share the post "Terramoto de 1755: roteiro pelos lugares que guardam a memória da catástrofe em Lisboa"
Em muitos recantos de Lisboa, o passado não está propriamente escondido. Está à vista, nas fachadas, nas praças, nas ruas que parecem desenhadas a régua e até nas ruínas de uma igreja que nunca chegou a recuperar o antigo esplendor. Para descobrir esta outra dimensão da capital, basta recuar até 1 de novembro de 1755.
Na manhã do Dia de Todos-os-Santos, um violento terramoto abalou Lisboa. A destruição provocada pelos abalos sísmicos foi agravada por um tsunami e por incêndios que se prolongaram durante vários dias.
Grande parte da cidade ficou em ruínas, milhares de pessoas perderam a vida e desapareceram edifícios de enorme valor histórico, religioso e artístico.
Mas a história não terminou na destruição. Sob a orientação de Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, Lisboa iniciou um ambicioso processo de reconstrução que viria a transformar profundamente a sua identidade urbana.
Mais de 270 anos depois, é possível percorrer alguns dos lugares que testemunham esse acontecimento.
Quake: sentir o terramoto de 1755 na primeira pessoa

Começar pelo Quake – Centro do Terramoto de Lisboa, em Belém, é uma forma particularmente interessante de enquadrar todo o percurso. Este espaço combina história, ciência e tecnologia para recriar um dos episódios mais marcantes da história portuguesa.
Não se trata de um museu convencional, daqueles em que se percorrem salas a ler legendas e a observar objetos atrás de vitrinas. Aqui, a experiência é imersiva e interativa. Através de projeções, vídeo mapping, recursos multimédia e simuladores, os visitantes são conduzidos até à Lisboa de 1755, acompanhando os acontecimentos que antecederam e sucederam à catástrofe.
Um dos momentos mais marcantes é precisamente a simulação do sismo, que procura transmitir a sensação de estar numa cidade a ser abalada pela força da natureza.
Convento do Carmo: cicatriz impressionante

No Largo do Carmo encontra-se uma das imagens mais emblemáticas da destruição provocada pelo terramoto de 1755. As Ruínas do Convento do Carmo são, provavelmente, o testemunho arquitetónico mais expressivo daquele acontecimento.
O antigo Convento de Santa Maria do Carmo foi fundado por iniciativa de D. Nuno Álvares Pereira, no final do século XIV. A sua igreja gótica era considerada uma das mais importantes de Lisboa, tanto pela dimensão como pela riqueza arquitetónica e artística.
O terramoto provocou danos gravíssimos no edifício, destruindo grande parte da estrutura e praticamente todo o seu recheio religioso e artístico.
As obras de recuperação começaram em 1756, mas acabaram por ser interrompidas definitivamente em 1834, na sequência da extinção das ordens religiosas. E assim ficou.
O espaço acolhe atualmente o Museu Arqueológico do Carmo, fundado em 1864, que reúne coleções arqueológicas e artísticas de diferentes períodos históricos.
Igreja de São Domingos: sobrevivente do terramoto

A poucos minutos do Rossio, no Largo de São Domingos, encontra-se a Igreja de São Domingos. A sua história está profundamente ligada aos acontecimentos de 1755, mas também a outro episódio devastador que deixou marcas no edifício.
Fundada no século XIII, a igreja foi durante muito tempo um dos templos mais importantes da capital. O terramoto destruiu grande parte da construção, tendo sobrevivido apenas algumas estruturas, entre as quais a capela-mor.
A reconstrução começou em 1758, com intervenção do arquiteto Carlos Mardel, e procurou devolver ao templo a sua importância original.
Contudo, a história voltou a ser particularmente cruel em 1959, quando um violento incêndio destruiu grande parte do interior. As obras posteriores optaram por preservar algumas das marcas deixadas pelo fogo, em vez de tentar apagar completamente os sinais da destruição.
Rossio: Lisboa anterior ao terramoto desapareceu

A Praça de D. Pedro IV, conhecida como Rossio, é uma das paragens fundamentais deste percurso, não tanto por conservar ruínas visíveis, mas por representar a dimensão da transformação sofrida pela cidade.
Antes do terramoto, o Rossio era um dos principais centros da vida lisboeta. Nas suas imediações encontrava-se o Hospital Real de Todos-os-Santos, uma instituição hospitalar de enormes dimensões, cuja construção remontava ao final do século XV.
O edifício ocupava uma parte significativa da praça e era considerado um dos mais importantes hospitais públicos do reino.
O terramoto de 1755 deixou-o praticamente destruído. A sua história, porém, não terminou imediatamente: ainda foram ponderadas obras de recuperação, mas, em 1769, D. José determinou a transferência do hospital para o antigo Colégio de Santo Antão, onde passou a funcionar com a designação de Hospital Real de São José.
Atualmente, o espaço anteriormente ocupado pelo hospital corresponde, em grande medida, à zona da Praça da Figueira e aos quarteirões envolventes.
Baixa Pombalina: a cidade que renasceu das cinzas

Se existe um lugar onde o terramoto de 1755 continua verdadeiramente presente, mesmo sem ruínas à vista, é a Baixa Pombalina.
A reconstrução da cidade foi conduzida sob a orientação do futuro Marquês de Pombal, com a participação de uma equipa de engenheiros e arquitetos, entre os quais se destacaram Manuel da Maia, Eugénio dos Santos e Carlos Mardel.
O plano aprovado em 1758 rompeu com a antiga organização medieval da Baixa, caracterizada por ruas estreitas, sinuosas e irregulares.
Em seu lugar surgiu uma estrutura urbana organizada, com ruas largas, paralelas e perpendiculares, quarteirões regulares e edifícios de desenho relativamente uniforme. É precisamente esta geometria que hoje distingue a zona.
A reconstrução trouxe também importantes inovações técnicas. Uma das mais conhecidas é a chamada estrutura em gaiola, um sistema antissísmico que utiliza uma armação de madeira integrada nas paredes dos edifícios, concebida para conferir maior resistência aos movimentos do solo.
Foram ainda introduzidas soluções de construção normalizadas, fundações em estacaria e sistemas de saneamento e drenagem. A ideia era reconstruir, sim, mas evitar que uma futura catástrofe tivesse consequências semelhantes.
O passeio pela Rua Augusta, Rua do Ouro, Rua da Prata e Rua dos Fanqueiros permite observar esta organização urbana.
Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros
A poucos passos da Rua Augusta, existe um espaço que permite descobrir uma Lisboa muito mais antiga do que aquela que se vê à superfície.
O Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros (NARC) é uma das visitas mais interessantes para quem pretende aprofundar a história da cidade.
Os vestígios arqueológicos foram descobertos entre 1991 e 1995, durante obras de recuperação de edifícios do Millennium bcp.
As escavações revelaram estruturas e materiais que documentam cerca de 2500 anos de ocupação humana, desde a época pré-romana até ao período posterior ao terramoto.
A visita permite observar vestígios de diferentes civilizações, incluindo estruturas de época romana, espaços de produção e armazenamento, elementos do período islâmico e testemunhos da Lisboa medieval e moderna.
Mas há um pormenor especialmente relevante para este roteiro. Os níveis de ruína e os escombros deixados pelo terramoto de 1755, assim como os vestígios do incêndio que se seguiu, estão preservados no registo arqueológico do local.
Praça do Comércio: o novo rosto junto ao Tejo

O percurso termina num dos espaços mais emblemáticos da capital: a Praça do Comércio.
Antes do terramoto, este local era conhecido como Terreiro do Paço e acolhia o Paço Real, residência da família real portuguesa desde o século XVI.
O conjunto incluía ainda importantes edifícios administrativos, comerciais e culturais, entre os quais a Casa da Índia, a Alfândega e a Ópera do Tejo, inaugurada poucos meses antes da catástrofe.
Tudo foi profundamente afetado pelo terramoto, pelo maremoto e pelos incêndios que se seguiram.
A reconstrução deu origem a uma praça completamente diferente. O novo espaço, concebido no âmbito do plano pombalino, passou a apresentar uma configuração quadrangular, delimitada por edifícios de fachadas uniformes em três dos seus lados e aberta sobre o rio Tejo.
Uma cidade que aprendeu a reconstruir-se

O terramoto de 1755 não foi apenas uma tragédia natural. Foi um acontecimento que alterou a organização política, económica, social e arquitetónica de Lisboa e teve repercussões muito para lá das fronteiras portuguesas.
A reconstrução da capital tornou-se uma referência internacional no planeamento urbano e na engenharia, contribuindo também para o desenvolvimento do pensamento científico sobre os fenómenos sísmicos.
Lisboa não apagou completamente as marcas de 1755. Em alguns lugares, decidiu preservá-las. E ainda bem.