Miguel Pinto
Miguel Pinto
19 Fev, 2026 - 14:30

A planear uma viagem até Cuba? É melhor pensar duas vezes

Miguel Pinto

A crise em Cuba está a afetar não só a população local, mas também o turismo. Saiba o que fazer se pretende viajar até à ilha.

Havana em Cuba

Cuba sempre foi um destino que encanta, com as praias de areia branca de Varadero e a arquitectura colonial de Havana.

O ritmo contagiante da música caribenha há décadas que atrai milhões de visitantes de todo o mundo à ilha das Caraíbas, incluindo muitos portugueses.

Mas 2026 trouxe uma realidade bem diferente: uma crise energética sem precedentes nas últimas décadas está a transformar radicalmente o panorama para quem quer visitar a ilha.

O apertar do cerco norte-americano tem feito a economia do país cair a olhos vistos e não se vislumbra uma saída imediata para a crise.

A questão que muitos viajantes se colocam hoje é simples e urgente: vale a pena ir a Cuba agora?

O que está a acontecer em Cuba?

vista da capital de Cuba

A crise que Cuba atravessa tem raízes na geopolítica internacional.

Desde o início de 2026, a ilha enfrenta uma escassez aguda de combustível, agravada pelo corte nas entregas de petróleo da Venezuela (que cobria cerca de um terço das necessidades energéticas cubanas) após a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro pelas forças armadas norte-americanas, em janeiro.

A pressão de Washington intensificou-se com ameaças de tarifas alfandegárias aos países que continuassem a fornecer crude a Cuba, levando praticamente todos os fornecedores a suspender ou reduzir drasticamente as suas exportações para a ilha.

Em resposta, a 7 de fevereiro de 2026, o governo cubano declarou um estado de emergência energética por tempo indeterminado.

O presidente Miguel Díaz-Canel reconheceu publicamente a “aguda escassez de combustível” e alertou que as medidas adoptadas vão “afectar o transporte de alimentos, a produção de alimentos, os transportes públicos e o funcionamento dos hospitais”.

Uma semana de trabalho de quatro dias para as empresas estatais, restrições na venda de combustível e cortes drásticos nos transportes públicos são apenas algumas das medidas em vigor

Como esta crise afeta os turistas?

Aspecto da praia em varadero

As consequências para o sector turístico são imediatas e profundas.

Voos cancelados e restrições aéreas. As autoridades aeronáuticas cubanas proibiram os aviões em trânsito de reabastecer nos aeroportos da ilha, o que afectou directamente as rotas de longo curso.

Companhias aéreas do Canadá (Air Canada, WestJet, Transat), da Rússia, da Europa e dos Estados Unidos suspenderam ou reduziram drasticamente os seus voos. A Rússia chegou a anunciar a repatriação dos seus turistas e a suspensão total dos voos até nova informação.

A Air Canada, por exemplo, suspendeu a sua operação para Cuba a partir de meados de fevereiro, cancelando mais de 1.700 voos até abril, segundo dados da empresa de análise Cirium.

Hotéis fechados e transferências forçadas. Várias cadeias hoteleiras internacionais encerraram unidades na ilha. A NH Hotels anunciou o encerramento de todos os seus hotéis em Cuba.

A Meliá, maior operadora turística no país, fechou três das suas 30 unidades e iniciou um processo de concentração de turistas nos estabelecimentos com melhor capacidade operacional. Em Varadero, pelo menos dois hotéis encerraram portas.

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Cortes de electricidade e água. Os cortes de energia são frequentes em toda a ilha, com quebras ocasionais do sistema eléctrico nacional que chegam a durar vários dias consecutivos.

Estes apagões afectam também o abastecimento de água, gás e o funcionamento de hospitais, restaurantes e estabelecimentos comerciais.

Desde outubro de 2024 que se registam colapsos da rede a nível nacional, mas a situação agravou-se consideravelmente desde o início de 2026.

Transportes internos comprometidos. A escassez de combustível afecta directamente a mobilidade dentro da ilha.

A direcção dos Autocarros Nacionais da província de Las Tunas, por exemplo, suspendeu todas as suas rotas, exceptuando a ligação a Havana, devido à “complexa situação com a disponibilidade de combustível”.

Quem planeia alugar um carro deve contar com sérias dificuldades no abastecimento.

Serviços de saúde reduzidos. Muitos hospitais geridos pelo Estado reduziram os seus serviços.

Num contexto de viagem, esta realidade é particularmente preocupante, especialmente para quem tem necessidades médicas específicas ou esteja a planear actividades de maior risco físico.

Cuba: o que dizem as autoridades portuguesas?

Panorâmica da praia em Varadero

O Governo português adoptou uma posição clara. No Portal das Comunidades Portuguesas, o Ministério dos Negócios Estrangeiros aconselha os viajantes a “considerar o adiamento de deslocações não indispensáveis a Cuba até que a situação estabilize”.

O ministro Paulo Rangel afirmou que a situação na ilha está a ser “acompanhada com muita atenção e também com preocupação”.

A Associação Nacional de Agências de Viagens (ANAV) vai no mesmo sentido e os passageiros com viagem marcada até à primeira semana de abril estão a ser aconselhados pelas agências a mudar de destino.

O presidente da ANAV, Miguel Quintas, considera que “até melhor informação, as reservas a partir de meados de abril poderão estabilizar novamente”, embora sublinhe a necessidade de acompanhar diariamente a evolução da crise.

O Reino Unido e o Canadá emitiram avisos semelhantes, aconselhando os seus cidadãos a evitar viagens não essenciais à ilha.

E quem já tem viagem marcada?

Para os portugueses com voos reservados, há situações concretas em curso.

Segundo a ANAV, os poucos turistas nacionais afectados estão a ser acompanhados pelas respectivas agências de viagens, sendo que o regresso a Portugal está a ser realizado com escala em Santo Domingo, na República Dominicana.

Quem tiver reservas feitas para os próximos meses deve contactar imediatamente a companhia aérea ou o operador turístico para perceber as opções disponíveis, seja cancelamento com reembolso, alteração de data ou mudança de destino.

Muitos operadores estão a aceitar alterações sem penalização, dado o carácter extraordinário da situação.

Conselhos práticos caso decida viajar na mesma

Mulheres cubanas com trajes tradicionais

Se, mesmo perante este contexto, a decisão for avançar com a viagem, há um conjunto de precauções essenciais a tomar.

Contratar um seguro de viagem abrangente é absolutamente indispensável, seguro esse que deve cobrir cancelamento ou interrupção de viagem, assistência médica e evacuação médica.

Dada a situação dos hospitais cubanos, uma cobertura de evacuação médica para o exterior é especialmente recomendada.

Registar a viagem na aplicação “Registo Viajante” do Governo português é outra medida fortemente aconselhada.

Este registo, voluntário e gratuito, facilita a actuação das autoridades portuguesas em situações de emergência e permite receber actualizações sobre as condições de segurança no destino.

Levar dinheiro em numerário suficiente é fundamental, já que o levantamento em caixas multibanco em Cuba é bastante difícil e limitado.

Os cartões bancários emitidos nos EUA não são aceites. É preferível levar euros, que podem ser trocados localmente.

Optar por pacotes turísticos em detrimento de viagens independentes é, neste contexto, a opção mais segura. Os operadores turísticos têm maior capacidade de gerir situações de crise, incluindo a reorganização de alojamentos e de voos de regresso.

Evitar a condução nocturna é outra recomendação das autoridades portuguesas, dada a reduzida iluminação das estradas cubanas.

Em situação de acidente, os estrangeiros que aluguem viaturas podem ficar impedidos de sair do país durante o processo de averiguações.

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Impacto tremendo na ilha e na população

Toda esta situação tem um impacto tremendo e os números falam por si.

Cuba registou apenas 1,8 milhões de visitantes internacionais em 2025, o valor mais baixo em mais de duas décadas, excluindo os anos da pandemia. As praias de Varadero, antes animadas durante a época de inverno do hemisfério norte, encontram-se agora praticamente desertas.

O festival anual de charutos Habanos, que gera milhões de dólares em receita, foi cancelado. A Sherritt International suspendeu as operações de mineração de níquel e cobalto na ilha.

“Há uma incerteza total. Tudo está a começar a desmoronar”, confessou Alejandro Morejon, guia turístico em Varadero há mais de três décadas.

E a verdade é que ninguém sabe quando pode a situação estabilizar.

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