Miguel Pinto
Miguel Pinto
08 Set, 2026 - 11:00

Alunos portugueses regrediram 20 anos nas disciplinas de Leitura e Matemática

Miguel Pinto

Os alunos portugueses recuaram 20 anos a Matemática e Leitura. Conheça os números do relatório da OCDE e as causas apontadas.

alunos

O novo relatório PISA da OCDE confirma aquilo que os últimos ciclos já deixavam antever e os alunos portugueses de 15 anos pioraram os resultados a Matemática, Leitura e Ciências, regredindo a valores próximos dos registados no início do século.

Em Matemática e Leitura, Portugal está agora abaixo do nível observado em 2000, tendo sido anulados praticamente todos os ganhos conquistados ao longo de duas décadas.

O que é o PISA?

O PISA (Programme for International Student Assessment) é o maior estudo internacional de avaliação educativa promovido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Realiza-se de três em três anos e mede competências de jovens de 15 anos em Matemática, Leitura e Ciências, comparando o desempenho de dezenas de sistemas educativos.

Na edição de 2025, participaram mais de 760 mil estudantes de 91 países e economias, entre os quais quase sete mil alunos portugueses, de 225 escolas do país.

Por medir competências e não apenas conhecimentos memorizados, o PISA é frequentemente usado por governos e investigadores para avaliar a eficácia das políticas educativas e para comparar sistemas de ensino entre si.

Quedas em matemática e leitura

alunos a candidatar-se ao programa + superior

Comparando com o ciclo anterior, de 2022, os resultados portugueses recuaram de forma expressiva em duas das três áreas avaliadas:

  • Matemática – 460 pontos, menos 12 do que em 2022, um valor próximo do registado em 2003.
  • Leitura – 462 pontos, menos 15 do que em 2022, o pior resultado nacional de sempre nesta área e oito pontos abaixo do obtido em 2000, ano da primeira participação portuguesa no estudo.
  • Ciências – 482 pontos, com uma descida ligeira de apenas três pontos, mas ainda assim bastante abaixo do nível alcançado em 2015.

A média da OCDE situou-se em 463 pontos a Matemática, 461 a Leitura e 482 a Ciências, pelo que Portugal permanece perto da média internacional, apesar da quebra.

Ainda assim, o retrocesso é significativo. Segundo a própria OCDE, os resultados nacionais em Matemática e Leitura “regressaram a valores próximos dos observados em 2006”, revertendo por completo os progressos conquistados nas décadas seguintes.

Na comparação entre os 90 países envolvidos no estudo, Portugal surge em 30.º lugar a Matemática, 26.º a Leitura e 29.º a Ciências.

De país de “maus alunos” a “história de sucesso”

Para perceber a dimensão da notícia, é preciso olhar para a trajetória portuguesa nas últimas duas décadas e meia.

Portugal participou pela primeira vez no PISA em 2000, com resultados muito abaixo da média da OCDE. Nos anos seguintes, e sobretudo entre 2006 e 2015, o país melhorou de forma consistente, contrariando a tendência de estagnação já sentida noutros sistemas educativos.

Essa evolução levou o diretor do Departamento de Educação e Competências da OCDE, Andreas Schleicher, a apontar Portugal como uma das “maiores histórias de sucesso da Europa” em matéria educativa.

A partir de 2015, o cenário inverteu-se. Portugal passou a acompanhar a trajetória descendente já observada em vários países da OCDE, com o ciclo de 2022 a funcionar como primeiro sinal de alerta.

Foi uma quebra na altura associada, em parte, aos efeitos da pandemia de covid-19 e do ensino à distância. Os resultados de 2025 mostram que essa recuperação não aconteceu e que a tendência negativa se acentuou.

Resolução de problemas com recurso à tecnologia

alunos escola

Nem tudo no relatório é negativo. O PISA 2025 introduziu, pela primeira vez, uma avaliação da capacidade dos alunos para resolver problemas recorrendo a ferramentas e ambientes computacionais.

Nesta área, Portugal teve um desempenho acima da média da OCDE, com 501 pontos, contra os 500 da média internacional.

Este resultado sugere que os estudantes portugueses lidam razoavelmente bem com a resolução prática de problemas em ambiente digital, mesmo quando os fundamentos mais tradicionais (cálculo, compreensão e interpretação de texto) mostram sinais de fragilidade.

Falta de professores e de pessoal de apoio nas escolas

O relatório da OCDE cruza os resultados académicos com as condições de funcionamento das escolas, e os indicadores portugueses revelam dificuldades relevantes:

  • 44% dos alunos frequentam escolas cujos diretores consideram que a falta de professores prejudica, de alguma forma, a capacidade de ensinar, acima dos 39% da média da OCDE;
  • 64% dos alunos estão em escolas onde os diretores identificam carências de pessoal de apoio (técnicos, assistentes operacionais), mais do que o dobro da média internacional;
  • 29% dos alunos frequentam escolas onde a falta de materiais educativos, dos manuais às ferramentas informáticas, é apontada como obstáculo à aprendizagem, e 37% referem problemas de infraestruturas.

Apesar de o indicador da falta de professores ter melhorado ligeiramente face a 2022, Portugal continua acima da média da OCDE neste domínio, o que reforça a perceção de que as condições de funcionamento das escolas continuam a pesar no desempenho dos alunos.

Desigualdades sociais marcam sistema educativo

alunos concentrados a fazer exames nacionais

O relatório sublinha ainda que as desigualdades socioeconómicas entre alunos não diminuíram em Portugal, contrariando a tendência de convergência registada na maioria dos países da OCDE.

Entre 2015 e 2025, a diferença de desempenho entre estudantes de contextos mais e menos favorecidos manteve-se praticamente estável no país.

Há, no entanto, indicadores mais positivos do lado do comportamento e do bem-estar escolar.

Os alunos portugueses continuam a mostrar-se curiosos e perseverantes, acima da média da OCDE, faltam pouco às aulas (apenas 7% faltaram pelo menos um dia nas duas semanas anteriores ao teste, face a 22% na média da OCDE) e reportam menos casos de bullying (14%, contra 20% na média internacional).

Em contrapartida, Portugal continua a ter dificuldade em formar alunos de excelência. Apenas 6% atingem os níveis mais altos a Ciências e a Matemática, e apenas 3% a Leitura, valores abaixo da média da OCDE.

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