Share the post "Pagar em euros com uma conta no Brasil? Sistema Pix a caminho de se ligar à Europa"
Pagar em euros com uma conta brasileira, através de um simples QR code lido na maquineta de uma loja em Lisboa, no Porto ou em qualquer cidade da zona euro. É este, em traços largos, o cenário que o Banco Central do Brasil e o Banco Central Europeu (BCE) começaram a explorar, ao avaliarem uma possível ligação entre o Pix e o TIPS, a plataforma europeia de pagamentos instantâneos.
As conversas estão ainda numa fase preliminar, mas já constam do calendário de trabalho do BCE, o que confere ao projeto um peso que vai além de uma simples intenção.
Segundo um documento do BCE sobre o estado dos pagamentos transfronteiriços do TIPS com sistemas de outros países, os estudos relativos a uma possível conexão com o Pix encontram-se em fase de pré-investigação.
Nesta etapa, que deverá ficar concluída este mês, são feitas as análises jurídica, técnica, de segurança e operacional necessárias para avaliar se, no futuro, os dois sistemas podem realmente falar entre si.
Contactado, o BCE confirmou o teor do documento e a existência de conversações preliminares sobre uma eventual interligação entre o TIPS e o Pix.
Do lado brasileiro, o Banco Central ainda não se pronunciou publicamente, mas fontes técnicas ouvidas pela imprensa brasileira confirmam que o tema já foi discutido internamente.
Como funciona o TIPS, o “Pix” da zona euro

O TIPS (TARGET Instant Payment Settlement) é o sistema criado pelo BCE para permitir transferências instantâneas entre pessoas e empresas na Europa, todos os dias do ano, 24 horas por dia.
A liquidação ocorre em poucos segundos e em moeda de banco central, o que significa que o dinheiro se move com a mesma garantia e segurança de uma transação em numerário, mas de forma totalmente digital.
Além do euro, o TIPS já processa pagamentos em coroas suecas e em coroas dinamarquesas e outros países europeus fora da zona euro, como a Islândia, têm vindo a aderir ao sistema.
Na prática, o TIPS cumpre na Europa uma função equivalente à do Pix no Brasil. Serve de infraestrutura de base para que bancos e outras entidades financeiras ofereçam aos seus clientes transferências imediatas, sem os custos e os prazos associados aos métodos tradicionais.
Pix já circula em Portugal, mas de outra forma
Antes de qualquer interligação oficial entre os dois sistemas, o Pix já é utilizado por brasileiros em Portugal, ainda que através de um modelo bem diferente do que está agora a ser estudado.
Desde 2022, parcerias entre instituições financeiras brasileiras e portuguesas, como a Unicre, permitem que turistas brasileiros paguem em reais em lojas portuguesas aderentes, mesmo sem conta bancária em Portugal.
Nestes casos, porém, não existe uma verdadeira ligação entre os sistemas bancários. Trata-se de acordos comerciais entre instituições, que fazem a conversão e a liquidação por vias tradicionais, fora da infraestrutura do Pix.
A eventual ligação ao TIPS representaria um salto qualitativo em relação a este modelo.
Em vez de depender de acordos pontuais entre empresas, o utilizador poderia usar diretamente a sua conta no Brasil para pagar em euros, com o próprio sistema a tratar da conversão cambial de forma instantânea.
É essa, pelo menos, a leitura feita por Thiago Cavalcanti, presidente da Associação Nacional dos Auditores do Banco Central do Brasil, que descreve o cenário como uma operação em que o valor seria convertido e pago na hora, embora com custos de transação que, defende, deverão ficar sempre explícitos para quem paga.
Caso de sucesso no Brasil

O momento não é inocente. O Pix tornou-se, nos últimos anos, um dos maiores casos de sucesso de infraestrutura financeira pública a nível mundial, usado por cerca de 80% da população brasileira e já testado, sob diferentes modelos, em países como Argentina, Estados Unidos, Portugal, Espanha, França e Itália.
Esse protagonismo colocou o sistema no centro de uma disputa comercial e política entre o Brasil e os Estados Unidos, depois de a administração norte-americana ter acusado o Banco Central brasileiro de favorecer o Pix em detrimento de operadoras privadas como a Visa e a Mastercard.
Neste contexto, uma eventual ligação ao TIPS reforça a narrativa de internacionalização do Pix por vontade própria, através de acordos entre bancos centrais, e não apenas por via de parcerias privadas.
Ao mesmo tempo, levanta questões sobre governação, capacidade institucional e orçamento do próprio Banco Central do Brasil, para dar resposta a um projeto desta dimensão.
Que fases faltam e quando pode arrancar
Segundo o calendário preliminar discutido pelas equipas técnicas, o processo deverá seguir três grandes etapas.
- Pré-investigação (até setembro de 2026): análises jurídica, técnica, de segurança e operacional, já em curso.
- Exploração (outubro de 2026 a março de 2027): aprofundamento dos estudos de viabilidade e definição dos principais marcos do projeto.
- Implementação (abril de 2027 a junho de 2028), sujeita a aprovação posterior pelos dois bancos centrais, com o corredor tecnicamente operacional previsto para novembro de 2027 e um projeto-piloto estimado para junho de 2028.
Estas datas são ainda preliminares e podem ser ajustadas em função dos resultados dos estudos, de exigências regulatórias e da coordenação com os participantes de mercado.
Está também prevista uma visita de um comité de responsáveis do Banco Central do Brasil ao BCE, em outubro, e a expectativa entre técnicos é a de que um sinal mais claro sobre o avanço das negociações surja ainda em setembro, quando termina a fase de pré-investigação.
O que pode mudar para quem paga e recebe
Se o projeto avançar até à fase de implementação, quais os efeitos práticos que se irão fazer sentir?
- Menos fricção nas viagens: um brasileiro em visita à Europa poderia pagar diretamente com a sua conta no Brasil, através de QR code, sem precisar de dinheiro em euros nem de um cartão internacional.
- Custos potencialmente mais baixos: ao contrário de muitos cartões internacionais, que aplicam taxas de câmbio pouco vantajosas e encargos adicionais, uma ligação direta entre sistemas poderá permitir taxas de conversão mais transparentes e competitivas, embora continuem a existir custos de transação.
- Maior alcance para o comércio europeu: comerciantes na zona euro passariam a aceitar pagamentos de clientes brasileiros de forma mais simples, sem depender de acordos comerciais específicos com bancos ou fintechs.
- Um novo patamar de internacionalização do Pix: a ligação ao TIPS colocaria o Brasil ao lado de outros países europeus fora da zona euro que já aderiram à mesma infraestrutura, reforçando o Pix como referência global em pagamentos instantâneos.
No entanto, refira-se de novo, trata-se de um projeto em fase de estudo, sujeito a decisões políticas e técnicas dos dois lados do Atlântico, e com uma janela de implementação que, mesmo em cenário otimista, só deverá ganhar forma a partir de 2027.