Miguel Pinto
Miguel Pinto
07 Set, 2026 - 12:00

Pagar em euros com uma conta no Brasil? Sistema Pix a caminho de se ligar à Europa

Miguel Pinto

O Banco Central do Brasil negoceia ligar o Pix ao TIPS, sistema de pagamentos do BCE. Saiba o que muda, prazos e como pode funcionar.

símbolo do Pix

Pagar em euros com uma conta brasileira, através de um simples QR code lido na maquineta de uma loja em Lisboa, no Porto ou em qualquer cidade da zona euro. É este, em traços largos, o cenário que o Banco Central do Brasil e o Banco Central Europeu (BCE) começaram a explorar, ao avaliarem uma possível ligação entre o Pix e o TIPS, a plataforma europeia de pagamentos instantâneos.

As conversas estão ainda numa fase preliminar, mas já constam do calendário de trabalho do BCE, o que confere ao projeto um peso que vai além de uma simples intenção.

Segundo um documento do BCE sobre o estado dos pagamentos transfronteiriços do TIPS com sistemas de outros países, os estudos relativos a uma possível conexão com o Pix encontram-se em fase de pré-investigação.

Nesta etapa, que deverá ficar concluída este mês, são feitas as análises jurídica, técnica, de segurança e operacional necessárias para avaliar se, no futuro, os dois sistemas podem realmente falar entre si.

Contactado, o BCE confirmou o teor do documento e a existência de conversações preliminares sobre uma eventual interligação entre o TIPS e o Pix.

Do lado brasileiro, o Banco Central ainda não se pronunciou publicamente, mas fontes técnicas ouvidas pela imprensa brasileira confirmam que o tema já foi discutido internamente.

Como funciona o TIPS, o “Pix” da zona euro

mb way e PIX nos telemóvel

O TIPS (TARGET Instant Payment Settlement) é o sistema criado pelo BCE para permitir transferências instantâneas entre pessoas e empresas na Europa, todos os dias do ano, 24 horas por dia.

A liquidação ocorre em poucos segundos e em moeda de banco central, o que significa que o dinheiro se move com a mesma garantia e segurança de uma transação em numerário, mas de forma totalmente digital.

Além do euro, o TIPS já processa pagamentos em coroas suecas e em coroas dinamarquesas e outros países europeus fora da zona euro, como a Islândia, têm vindo a aderir ao sistema.

Na prática, o TIPS cumpre na Europa uma função equivalente à do Pix no Brasil. Serve de infraestrutura de base para que bancos e outras entidades financeiras ofereçam aos seus clientes transferências imediatas, sem os custos e os prazos associados aos métodos tradicionais.

Pix já circula em Portugal, mas de outra forma

Antes de qualquer interligação oficial entre os dois sistemas, o Pix já é utilizado por brasileiros em Portugal, ainda que através de um modelo bem diferente do que está agora a ser estudado.

Desde 2022, parcerias entre instituições financeiras brasileiras e portuguesas, como a Unicre, permitem que turistas brasileiros paguem em reais em lojas portuguesas aderentes, mesmo sem conta bancária em Portugal.

Nestes casos, porém, não existe uma verdadeira ligação entre os sistemas bancários. Trata-se de acordos comerciais entre instituições, que fazem a conversão e a liquidação por vias tradicionais, fora da infraestrutura do Pix.

A eventual ligação ao TIPS representaria um salto qualitativo em relação a este modelo.

Em vez de depender de acordos pontuais entre empresas, o utilizador poderia usar diretamente a sua conta no Brasil para pagar em euros, com o próprio sistema a tratar da conversão cambial de forma instantânea.

É essa, pelo menos, a leitura feita por Thiago Cavalcanti, presidente da Associação Nacional dos Auditores do Banco Central do Brasil, que descreve o cenário como uma operação em que o valor seria convertido e pago na hora, embora com custos de transação que, defende, deverão ficar sempre explícitos para quem paga.

Caso de sucesso no Brasil

pagar-com-telemovel

O momento não é inocente. O Pix tornou-se, nos últimos anos, um dos maiores casos de sucesso de infraestrutura financeira pública a nível mundial, usado por cerca de 80% da população brasileira e já testado, sob diferentes modelos, em países como Argentina, Estados Unidos, Portugal, Espanha, França e Itália.

Esse protagonismo colocou o sistema no centro de uma disputa comercial e política entre o Brasil e os Estados Unidos, depois de a administração norte-americana ter acusado o Banco Central brasileiro de favorecer o Pix em detrimento de operadoras privadas como a Visa e a Mastercard.

Neste contexto, uma eventual ligação ao TIPS reforça a narrativa de internacionalização do Pix por vontade própria, através de acordos entre bancos centrais, e não apenas por via de parcerias privadas.

Ao mesmo tempo, levanta questões sobre governação, capacidade institucional e orçamento do próprio Banco Central do Brasil, para dar resposta a um projeto desta dimensão.

Que fases faltam e quando pode arrancar

Segundo o calendário preliminar discutido pelas equipas técnicas, o processo deverá seguir três grandes etapas.

  • Pré-investigação (até setembro de 2026): análises jurídica, técnica, de segurança e operacional, já em curso.
  • Exploração (outubro de 2026 a março de 2027): aprofundamento dos estudos de viabilidade e definição dos principais marcos do projeto.
  • Implementação (abril de 2027 a junho de 2028), sujeita a aprovação posterior pelos dois bancos centrais, com o corredor tecnicamente operacional previsto para novembro de 2027 e um projeto-piloto estimado para junho de 2028.

Estas datas são ainda preliminares e podem ser ajustadas em função dos resultados dos estudos, de exigências regulatórias e da coordenação com os participantes de mercado.

Está também prevista uma visita de um comité de responsáveis do Banco Central do Brasil ao BCE, em outubro, e a expectativa entre técnicos é a de que um sinal mais claro sobre o avanço das negociações surja ainda em setembro, quando termina a fase de pré-investigação.

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O que pode mudar para quem paga e recebe

Se o projeto avançar até à fase de implementação, quais os efeitos práticos que se irão fazer sentir?

  • Menos fricção nas viagens: um brasileiro em visita à Europa poderia pagar diretamente com a sua conta no Brasil, através de QR code, sem precisar de dinheiro em euros nem de um cartão internacional.
  • Custos potencialmente mais baixos: ao contrário de muitos cartões internacionais, que aplicam taxas de câmbio pouco vantajosas e encargos adicionais, uma ligação direta entre sistemas poderá permitir taxas de conversão mais transparentes e competitivas, embora continuem a existir custos de transação.
  • Maior alcance para o comércio europeu: comerciantes na zona euro passariam a aceitar pagamentos de clientes brasileiros de forma mais simples, sem depender de acordos comerciais específicos com bancos ou fintechs.
  • Um novo patamar de internacionalização do Pix: a ligação ao TIPS colocaria o Brasil ao lado de outros países europeus fora da zona euro que já aderiram à mesma infraestrutura, reforçando o Pix como referência global em pagamentos instantâneos.

No entanto, refira-se de novo, trata-se de um projeto em fase de estudo, sujeito a decisões políticas e técnicas dos dois lados do Atlântico, e com uma janela de implementação que, mesmo em cenário otimista, só deverá ganhar forma a partir de 2027.

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