Portugal tem apenas 28 mil camas em residências públicas e privadas para um universo de 227 mil estudantes deslocados e internacionais, segundo um estudo da CBRE divulgado em agosto de 2026. O resultado é um défice de 119 mil camas, que obriga a maioria destes jovens a competir pelo mercado de arrendamento tradicional.
O desequilíbrio não é uma novidade pontual, mas o resultado do crescimento sustentado da procura, mais 147 mil estudantes nacionais deslocados e mais de 80 mil estudantes internacionais, sem que a oferta de alojamento especializado (o chamado PBSA, alojamento construído propositadamente para estudantes) acompanhe o ritmo. Até 2027 entram apenas cerca de três mil novas camas, sobretudo em Lisboa e no Porto.
Para quem vai procurar casa este ano letivo, a consequência é feroz: mais concorrência por cada quarto disponível e rendas que continuam a subir, principalmente nas cidades com mais faculdades.
28 mil camas para 227 mil estudantes é o retrato do défice
Os números da CBRE mostram um mercado sob pressão estrutural. Do universo de 227 mil estudantes com procura de alojamento, 147 mil são deslocados dentro do próprio país (cerca de 36% do total de alunos do ensino superior) e mais de 80 mil vêm do estrangeiro, atraídos pela segurança e pelo custo de vida ainda competitivo face a outros destinos europeus.
Do lado da oferta, a resposta é curta: apenas 28 mil camas especializadas, entre residências públicas e privadas. Sobram, por isso, 119 mil estudantes sem alternativa dedicada, que têm de disputar o mercado de arrendamento normal com famílias, trabalhadores e turistas de curta duração.
Este desequilíbrio já impulsionou, desde 2019, a captação de 1,2 mil milhões de euros em investimento no setor, quase todo (98%) proveniente de capital internacional. Para quem estuda ou tem um filho a estudar, o investimento em novos edifícios ainda não se traduz em mais vagas: a poupança para a faculdade continua a ter de contar com o cenário atual, não com o que está a ser construído.
Quem fica de fora paga mais no arrendamento tradicional
Mesmo dentro do segmento especializado, os valores já não são baixos. A renda mediana no PBSA situa-se nos 855 euros por mês em Lisboa e 745 euros no Porto, ainda assim, valores bem abaixo de Londres (2.283€), Dublin (1.964€) ou Madrid (1.332€), o que ajuda a explicar o apetite dos investidores internacionais por Portugal.
O problema é para os 119 mil que não conseguem sequer uma vaga nestas residências. Sem oferta especializada disponível, acabam a competir pelo mercado de arrendamento comum, onde os preços de um quarto partilhado já se aproximam dos praticados no PBSA em várias cidades universitárias. As residências universitárias públicas continuam a ser a opção mais barata, mas o número de vagas está longe de cobrir a procura, e as candidaturas fecham cedo.
Interior do país sofre mais, mas recebe menos investimento
Cerca de 90% da oferta privada de alojamento estudantil concentra-se em Lisboa, Porto e Coimbra. Enquanto isso, distritos como Vila Real, Castelo Branco e Évora registam taxas de deslocação estudantil superiores a 60% e continuam claramente subatendidos, os investidores seguem a procura mais visível, não necessariamente a mais urgente.
Esta é também a face mais paradoxal do problema: nestas regiões, o arrendamento tradicional costuma estar entre os mais baratos do país, mas a escassez de oferta específica para estudantes obriga muitas famílias a procurar em cidades vizinhas mais caras, quando a proximidade à faculdade seria a solução mais económica. O mesmo padrão de oferta desigual entre capitais e distritos já se via no mercado geral de arrendamento, que também cresce mais nas cidades do litoral do que no interior.
O que isto significa para o orçamento em 2026/2027
Quem tem um filho a entrar no ensino superior ou a mudar de cidade para continuar os estudos, deve assumir desde já que o alojamento vai custar mais do que em anos anteriores, sobretudo se o destino for uma cidade universitária de grande dimensão.
Três passos ajudam a proteger o orçamento familiar. Primeiro, candidate-se à residência pública o mais cedo possível: as vagas esgotam antes do início do ano letivo. Segundo, verifique se tem direito a bolsa de estudo ou a complemento de alojamento antes de assinar qualquer contrato de arrendamento. Terceiro, se a instituição de ensino tiver alternativas em cidades do interior, compare o custo total, incluindo transportes, antes de descartar essa opção só por ser menos conhecida.
Esperar que os preços baixem por conta própria é esperar em vão. Com apenas três mil camas novas a caminho até 2027 e um défice de 119 mil, a pressão sobre o arrendamento tradicional vai manter-se durante, pelo menos, mais dois ou três anos letivos. Quem faz as contas com antecedência e garante o alojamento cedo evita pagar o preço da falta de planeamento.
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CBRE Portugal. (2026, agosto 5). Escassez de alojamento estudantil atinge nível crítico em Portugal com défice de 119 mil camas [Comunicado de imprensa].