Share the post "Tobera: a aldeia espanhola que parece ter sido esculpida por dezenas de cascatas"
Entre desfiladeiros calcários e um rio que nunca se cala, existe em Espanha uma aldeia tão pequena que se percorre em meia hora, mas tão cheia de quedas de água que ganhou fama própria, Tobera.
Situada na província de Burgos, em Castela e Leão, esta localidade é conhecida como “o povoado das mil cascatas” e continua a ser um dos segredos mais bem guardados do norte espanhol.
Se procura um plano de fim de semana diferente, com paisagens de conto de fadas e pouco turismo de massas, as cascatas de Tobera merecem um lugar na lista.
Tobera é uma pedania (uma espécie de freguesia) do município de Frías, na comarca de Las Merindades, província de Burgos.
A ligação entre as duas localidades remonta a 1489, quando Tobera passou a integrar o território de Frías, embora as primeiras referências ao lugar sejam ainda mais antigas, do início do século XI.
O verdadeiro protagonista da aldeia é o rio Molinar. Ao descer por um desfiladeiro estreito, o curso de água divide Tobera em duas partes e forma, ao longo do seu trajeto, uma sucessão impressionante de quedas de água.
É precisamente esse desfiladeiro em forma de tubo que dá origem ao nome do lugar. “Tobera” é a palavra espanhola para o canal por onde a água é conduzida com força.
Passeio do Molinar: um roteiro entre cascatas

A melhor forma de conhecer Tobera é percorrendo o Paseo del Molinar, um trilho circular fácil, com pouco mais de um quilómetro, que pode ser feito em cerca de 30 a 45 minutos.
Não é preciso experiência em caminhadas nem equipamento especial, apenas uns bons sapatos e vontade de parar muitas vezes para tirar fotografias.
O percurso começa junto a umas escadas de pedra na margem direita do rio, mesmo ao lado da ponte medieval de um só arco, um dos cartões-postais mais fotografados da região.
É aí que se avista a primeira cascata. A partir desse ponto, as ruas da aldeia vão revelando, uma a uma, até cinco quedas de água diferentes, algumas mais discretas, escondidas entre a vegetação, outras mais estrondosas, com o som da água a preencher todo o vale.
O ponto alto do passeio é o final do trajeto, onde o rio se precipita numa cascata particularmente impressionante que cai sobre a antiga ponte de Tobera.
Muitos visitantes optam por regressar pela margem esquerda, onde existem mesas para um piquenique tranquilo à beira de água.
Tobera: conjunto monumental à beira do rio
Junto à ponte medieval encontra-se um dos pontos mais bonitos de Tobera: a ermida de Santa María de la Hoz, do século XIII, construída sobre os vestígios de um templo anterior.
De estilo românico tardio com pormenores góticos, este pequeno templo de nave única, decorado com afrescos, já serviu de albergue para os peregrinos que seguiam um dos ramos do Caminho Francês rumo a Santiago de Compostela.
Uma vez por ano realiza-se ali a romaria da Tobería, altura em que a capela abre as suas portas ao público.
Aos pés da ermida ergue-se ainda o humilhadouro do Cristo de los Remedios, do século XVII, que guarda uma imagem de Cristo numa vitrina protegida.
Aos seus pés, uma serpente esculpida em pedra recorda uma lenda local: contam que, certo dia, o correio da rainha atravessava a ponte quando o cavalo se assustou ao ver uma cobra.
O mensageiro invocou o Cristo dos Remédios e escapou ileso, tendo depois mandado construir o santuário em sinal de gratidão.
Há ainda outra lenda ligada à água de Tobera. Diz a tradição popular que as formações de pedra calcária depositadas ao longo do rio são, na verdade, princesas transformadas em pedra. Preferiram essa sorte a caírem nas mãos de homens maldosos.
Segundo a lenda, foi precisamente com essas rochas que se construiu a ermida de Nuestra Señora de la Hoz.
Tobera: produção de papel e energia hidroelétrica

A força da água de Tobera não serviu apenas para encantar visitantes. Durante séculos, foi também motor económico da região.
Já no século XII há registo de um moinho de papel na aldeia, um dos mais antigos de Espanha, que aproveitava a corrente do rio para produzir papel de qualidade duradoura.
Entre os séculos XVI e XVII, esses moinhos abasteciam grande parte das tipografias da cidade de Burgos, e há também referências à produção local de lã e linho.
Hoje em dia, é uma central hidroelétrica que continua a aproveitar a energia do rio Molinar.
Melhor altura para visitar e como chegar
A época alta para admirar as cascatas de Tobera em pleno esplendor é a primavera, logo a seguir ao degelo, quando o caudal do rio Molinar é mais generoso e o som da água se torna praticamente ensurdecedor.
Ainda assim, trata-se de um destino que vale a pena em qualquer altura do ano, incluindo o verão, quando o frescor da água é um convite ao descanso.
Para chegar de carro, a estrada BU-504 liga diretamente Frías a Tobera, e existe um parque de estacionamento sinalizado junto ao conjunto monumental da ermida e da ponte medieval, ponto de partida natural para o passeio.
Por se tratar de uma zona rural, o mais prático continua a ser a viagem de automóvel a partir de Burgos, cidade que fica a cerca de uma hora de distância.