Share the post "Lagos de Covadonga: férias de verão no coração dos Picos da Europa"
Os Lagos de Covadonga são um lugar com memória de um povo que começou a reconquistar a sua identidade numa batalha travada nas montanhas há mais de 1.300 anos. Encravados no coração do Parque Nacional dos Picos de Europa, nas Astúrias, são uma paisagem que parece pintada à mão, com água turquesa a refletir picos nevados, vacas asturianas a pastar livres e o silêncio denso das montanhas.
E depois há o cheiro: ar fresco, úmido, com camadas de pinheiro e pedra molhada. Esse é o momento em que percebemos que valeu cada quilómetro. Se anda à procura de um destino de verão fora do circuito habitual, com natureza selvagem, história, e aquela sensação rara de ter chegado a algum lugar verdadeiramente especial, este é o sítio certo.
Lagos de Covadonga, as estrelas das Astúrias
Os Lagos de Covadonga são um conjunto de origem glaciar localizado no concelho de Cangas de Onís, nas Astúrias, a cerca de 10 quilómetros do Santuário de Covadonga e a uma altitude que ronda os 1.100 metros.
Fazem parte do Parque Nacional dos Picos de Europa, o primeiro parque nacional de Espanha, criado em 1918 por iniciativa de Pedro Pidal, Marquês de Villaviciosa.
Os dois lagos principais são o Lago Enol e o Lago Ercina. O Enol é o maior dos dois, com cerca de 750 metros de comprimento e 400 de largura, com uma profundidade máxima de 25 metros, e fica a aproximadamente 1.070 metros de altitude.
O Ercina, um pouco mais acima (1.108 metros), é mais pequeno e menos fundo, mas compensa com uma cor de água que parece mudar com a luz, indo do verde claro ao verde escuro, com tons amarelados e até avermelhados dependendo da vegetação aquática e da hora do dia.
Existe ainda um terceiro lago, o Lago Bricial, que aparece e desaparece conforme as chuvas e o degelo da neve, um pequeno mistério sazonal que faz parte do encanto do lugar.
O que ver nos Lagos de Covadonga

Soa óbvio, mas merece ser dito com clareza. Os lagos, por si só, justificam a viagem. Há uma luz particular ali em cima, mais nítida, mais azul, que muda a forma como vemos tudo.
À volta, prados imensos onde vacas e cavalos pastam em absoluta liberdade, indiferentes às câmaras e aos visitantes. É um daqueles espetáculos que a natureza faz sem esforço e que nenhuma fotografia consegue capturar a tempo inteiro.
Mirador de Entrelagos
A subida curta até ao Mirador de Entrelagos é obrigatória. Daqui avistam-se os dois lagos em simultâneo, com os Picos de Europa como pano de fundo.
É a imagem postal, sim, mas é postal porque é genuinamente deslumbrante. Recomenda-se chegar cedo para evitar a azáfama de meio-dia e apanhar a luz matinal sobre a água.
Mirador de la Reina
Antes de chegar aos lagos, a estrada CO-4 passa pelo Mirador de la Reina, um miradouro panorâmico que, em dias claros, oferece uma das vistas mais impressionantes de toda a Cordilheira Cantábrica. É uma paragem que ninguém deve saltar, mesmo que pareça desvio.
Minas de Buferrera
Próximo do parque de estacionamento principal, as ruínas das antigas Minas de Buferrera contam uma história diferente: a do trabalho humano naquelas montanhas, da exploração mineira que marcou a região durante décadas. Hoje são parte integrante de uma das rotas de caminhada mais populares da zona.
O Hayedo Palomberu
Um bosque de faias antigo que faz parte do percurso circular entre os dois lagos. Caminhar por aqui, especialmente no verão quando a folhagem está densa, é entrar num mundo à parte.
Santuário e Basílica de Covadonga

Tecnicamente não ficam nos lagos, mas sim a caminho e são imperdíveis. O Real Sitio de Covadonga é o principal centro de peregrinação religiosa das Astúrias.
A gruta onde se venera a Virgem de Covadonga (carinhosamente chamada la Santina pelos asturianos) está encravada na rocha viva do Monte Auseva, onde também repousam os restos mortais de D. Pelayo, o primeiro rei asturiano.
A Basílica de Santa María la Real, de estilo neo-românico e construída no final do século XIX, é uma das imagens mais fotografadas de Espanha.
Fauna e flora
Para quem aprecia a natureza num sentido mais amplo, os Picos de Europa são território de urso pardo, lobo ibérico e águia real.
É pouco provável avistá-los durante uma visita casual de verão, mas a diversidade de aves é impressionante, e as camurças surgem com frequência nas zonas mais elevadas. A flora inclui faiais, carvalhos e prados alpinos que, no verão, explodem em cores.
Caminhadas de verão nos Lagos de Covadonga
A área dos lagos oferece percursos para toda a família, sem necessidade de equipamento técnico especializado.
A rota circular entre os dois lagos é o percurso de referência: aproximadamente 7 quilómetros, com pouco desnível, percorrível em 2 a 3 horas a ritmo tranquilo.
Passa pelo Lago Ercina, o Mirador de Entrelagos, o Hayedo Palomberu, as Minas de Buferrera e o Lago Enol, regressando ao ponto de partida. Adequada para famílias com crianças e para quem não tem experiência em montanha.
A ruta das Minas de Buferrera é uma alternativa mais curta (3,1 km), ideal para quem quer um passeio matinal de hora e meia com paragens para descansar e apreciar a paisagem.
Para caminhantes mais experientes, existem ainda percursos de maior exigência na zona: a Cruz de Priena, a famosa Ruta del Cares (um dos trekkings mais célebres de Espanha) e a subida a Bulnes (acessível também de funicular).
Atenção que mesmo nas rotas mais fáceis, é aconselhável usar calçado com boa sola. O terreno é irregular e a neblina pode instalar-se rapidamente. Nunca sair do trilho assinalado.
Piquenique com vista
Um dos prazeres mais simples, e mais recomendados, dos Lagos de Covadonga é montar um piquenique no prado que separa os dois lagos, rodeado pelo tilintar das campainhas das vacas e o silêncio absoluto das montanhas.
Os mercados locais de Cangas de Onís são o lugar ideal para abastecer o cesto com produtos asturianos: queijo Cabrales, embutidos, sidra. Uma experiência que não tem preço.
Gastronomia asturiana
Junto ao Lago Ercina existe um bar-restaurante onde se pode descansar, tomar um pequeno-almoço tardio ou almoçar com vista.
É o local perfeito para provar a fabada asturiana (o prato de feijão com enchidos que é alma da gastronomia local), um caldo de cachelos ou uma cacheira. A sidra, naturalmente, não pode faltar.
Como chegar aos Lagos de Covadonga

Este é a parte mais importante, especialmente para quem planeia visitar em época alta.
Restrição de acesso
No verão, a estrada CO-4 que liga Covadonga aos lagos está fechada a veículos particulares. A restrição está em vigor de 1 de junho a meados de outubro (com algumas exceções pontuais), durante as 24 horas do dia. Isto significa que, neste período, a única forma de aceder aos lagos é de autocarro público ou de táxi.
Autocarro
Os autocarros partem de vários parques de estacionamento ao longo do percurso entre Cangas de Onís e Covadonga.
Os principais pontos de partida são a Estação de Autocarros de Cangas de Onís e os parques ao longo da rota (El Bosque, Muñigo, El Repelao e El Peregrino em Covadonga). Cada parque tem uma paragem de autocarro própria.
O primeiro autocarro parte às 8h00 e o último regresso dos lagos sai às 20h50 (horários de época alta que podem variar ligeiramente).
O bilhete custa 9€ por adulto, 3,50€ para menores de 12 anos e é gratuito para crianças com menos de 3 anos. O estacionamento nos parques custa 3€ por dia. É possível comprar bilhetes antecipados online através da plataforma da transportadora.
De táxi
Existem serviços de táxi partilhado (com capacidade para 8 pessoas) que fazem o percurso sem reserva prévia pelo sistema de first come, first served.
O preço é de cerca de 12€ por pessoa. Existem também táxis individuais com paragem em Cangas de Onís e em Covadonga.
De bicicleta
As bicicletas não estão sujeitas às restrições de acesso e podem subir a estrada CO-4 em qualquer altura.
Para os ciclistas mais preparados, é uma subida exigente mas absolutamente recompensadora. A estrada é a mesma que serviu de chegada à Vuelta a España em várias ocasiões, o que lhe dá um estatuto quase mítico no mundo do ciclismo.
A partir de onde?
A base logística ideal é Cangas de Onís, a 12 quilómetros de Covadonga e a primeira capital do antigo Reino das Astúrias.
Daqui partem os autocarros, há ampla oferta de alojamento e restauração e é possível visitar a famosa Ponte Romana sobre o Rio Sella.