Miguel Pinto
Miguel Pinto
15 Jun, 2026 - 15:00

Lagos de Covadonga: férias de verão no coração dos Picos da Europa

Miguel Pinto

Os Lagos de Covadonga são uma paisagem única nos Picos da Europa, nas Astúrias. Um destino que no verão revela muitas surpresas.

lagos de covadonga

Os Lagos de Covadonga são um lugar com memória de um povo que começou a reconquistar a sua identidade numa batalha travada nas montanhas há mais de 1.300 anos. Encravados no coração do Parque Nacional dos Picos de Europa, nas Astúrias, são uma paisagem que parece pintada à mão, com água turquesa a refletir picos nevados, vacas asturianas a pastar livres e o silêncio denso das montanhas.

E depois há o cheiro: ar fresco, úmido, com camadas de pinheiro e pedra molhada. Esse é o momento em que percebemos que valeu cada quilómetro. Se anda à procura de um destino de verão fora do circuito habitual, com natureza selvagem, história, e aquela sensação rara de ter chegado a algum lugar verdadeiramente especial, este é o sítio certo.

Lagos de Covadonga, as estrelas das Astúrias

Os Lagos de Covadonga são um conjunto de origem glaciar localizado no concelho de Cangas de Onís, nas Astúrias, a cerca de 10 quilómetros do Santuário de Covadonga e a uma altitude que ronda os 1.100 metros.

Fazem parte do Parque Nacional dos Picos de Europa, o primeiro parque nacional de Espanha, criado em 1918 por iniciativa de Pedro Pidal, Marquês de Villaviciosa.

Os dois lagos principais são o Lago Enol e o Lago Ercina. O Enol é o maior dos dois, com cerca de 750 metros de comprimento e 400 de largura, com uma profundidade máxima de 25 metros, e fica a aproximadamente 1.070 metros de altitude.

O Ercina, um pouco mais acima (1.108 metros), é mais pequeno e menos fundo, mas compensa com uma cor de água que parece mudar com a luz, indo do verde claro ao verde escuro, com tons amarelados e até avermelhados dependendo da vegetação aquática e da hora do dia.

Existe ainda um terceiro lago, o Lago Bricial, que aparece e desaparece conforme as chuvas e o degelo da neve, um pequeno mistério sazonal que faz parte do encanto do lugar.

O que ver nos Lagos de Covadonga

trilho nos lagos de covadonga

Soa óbvio, mas merece ser dito com clareza. Os lagos, por si só, justificam a viagem. Há uma luz particular ali em cima, mais nítida, mais azul, que muda a forma como vemos tudo.

À volta, prados imensos onde vacas e cavalos pastam em absoluta liberdade, indiferentes às câmaras e aos visitantes. É um daqueles espetáculos que a natureza faz sem esforço e que nenhuma fotografia consegue capturar a tempo inteiro.

Mirador de Entrelagos

A subida curta até ao Mirador de Entrelagos é obrigatória. Daqui avistam-se os dois lagos em simultâneo, com os Picos de Europa como pano de fundo.

É a imagem postal, sim, mas é postal porque é genuinamente deslumbrante. Recomenda-se chegar cedo para evitar a azáfama de meio-dia e apanhar a luz matinal sobre a água.

Mirador de la Reina

Antes de chegar aos lagos, a estrada CO-4 passa pelo Mirador de la Reina, um miradouro panorâmico que, em dias claros, oferece uma das vistas mais impressionantes de toda a Cordilheira Cantábrica. É uma paragem que ninguém deve saltar, mesmo que pareça desvio.

Minas de Buferrera

Próximo do parque de estacionamento principal, as ruínas das antigas Minas de Buferrera contam uma história diferente: a do trabalho humano naquelas montanhas, da exploração mineira que marcou a região durante décadas. Hoje são parte integrante de uma das rotas de caminhada mais populares da zona.

O Hayedo Palomberu

Um bosque de faias antigo que faz parte do percurso circular entre os dois lagos. Caminhar por aqui, especialmente no verão quando a folhagem está densa, é entrar num mundo à parte.

Santuário e Basílica de Covadonga

basílica

Tecnicamente não ficam nos lagos, mas sim a caminho e são imperdíveis. O Real Sitio de Covadonga é o principal centro de peregrinação religiosa das Astúrias.

A gruta onde se venera a Virgem de Covadonga (carinhosamente chamada la Santina pelos asturianos) está encravada na rocha viva do Monte Auseva, onde também repousam os restos mortais de D. Pelayo, o primeiro rei asturiano.

A Basílica de Santa María la Real, de estilo neo-românico e construída no final do século XIX, é uma das imagens mais fotografadas de Espanha.

Fauna e flora

Para quem aprecia a natureza num sentido mais amplo, os Picos de Europa são território de urso pardo, lobo ibérico e águia real.

É pouco provável avistá-los durante uma visita casual de verão, mas a diversidade de aves é impressionante, e as camurças surgem com frequência nas zonas mais elevadas. A flora inclui faiais, carvalhos e prados alpinos que, no verão, explodem em cores.

Caminhadas de verão nos Lagos de Covadonga

A área dos lagos oferece percursos para toda a família, sem necessidade de equipamento técnico especializado.

A rota circular entre os dois lagos é o percurso de referência: aproximadamente 7 quilómetros, com pouco desnível, percorrível em 2 a 3 horas a ritmo tranquilo.

Passa pelo Lago Ercina, o Mirador de Entrelagos, o Hayedo Palomberu, as Minas de Buferrera e o Lago Enol, regressando ao ponto de partida. Adequada para famílias com crianças e para quem não tem experiência em montanha.

A ruta das Minas de Buferrera é uma alternativa mais curta (3,1 km), ideal para quem quer um passeio matinal de hora e meia com paragens para descansar e apreciar a paisagem.

Para caminhantes mais experientes, existem ainda percursos de maior exigência na zona: a Cruz de Priena, a famosa Ruta del Cares (um dos trekkings mais célebres de Espanha) e a subida a Bulnes (acessível também de funicular).

Atenção que mesmo nas rotas mais fáceis, é aconselhável usar calçado com boa sola. O terreno é irregular e a neblina pode instalar-se rapidamente. Nunca sair do trilho assinalado.

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Piquenique com vista

Um dos prazeres mais simples, e mais recomendados, dos Lagos de Covadonga é montar um piquenique no prado que separa os dois lagos, rodeado pelo tilintar das campainhas das vacas e o silêncio absoluto das montanhas.

Os mercados locais de Cangas de Onís são o lugar ideal para abastecer o cesto com produtos asturianos: queijo Cabrales, embutidos, sidra. Uma experiência que não tem preço.

Gastronomia asturiana

Junto ao Lago Ercina existe um bar-restaurante onde se pode descansar, tomar um pequeno-almoço tardio ou almoçar com vista.

É o local perfeito para provar a fabada asturiana (o prato de feijão com enchidos que é alma da gastronomia local), um caldo de cachelos ou uma cacheira. A sidra, naturalmente, não pode faltar.

Como chegar aos Lagos de Covadonga

pastagem junto aos lagos de covadonga

Este é a parte mais importante, especialmente para quem planeia visitar em época alta.

Restrição de acesso

No verão, a estrada CO-4 que liga Covadonga aos lagos está fechada a veículos particulares. A restrição está em vigor de 1 de junho a meados de outubro (com algumas exceções pontuais), durante as 24 horas do dia. Isto significa que, neste período, a única forma de aceder aos lagos é de autocarro público ou de táxi.

Autocarro

Os autocarros partem de vários parques de estacionamento ao longo do percurso entre Cangas de Onís e Covadonga.

Os principais pontos de partida são a Estação de Autocarros de Cangas de Onís e os parques ao longo da rota (El Bosque, Muñigo, El Repelao e El Peregrino em Covadonga). Cada parque tem uma paragem de autocarro própria.

O primeiro autocarro parte às 8h00 e o último regresso dos lagos sai às 20h50 (horários de época alta que podem variar ligeiramente).

O bilhete custa 9€ por adulto, 3,50€ para menores de 12 anos e é gratuito para crianças com menos de 3 anos. O estacionamento nos parques custa 3€ por dia. É possível comprar bilhetes antecipados online através da plataforma da transportadora.

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De táxi

Existem serviços de táxi partilhado (com capacidade para 8 pessoas) que fazem o percurso sem reserva prévia pelo sistema de first come, first served.

O preço é de cerca de 12€ por pessoa. Existem também táxis individuais com paragem em Cangas de Onís e em Covadonga.

De bicicleta

As bicicletas não estão sujeitas às restrições de acesso e podem subir a estrada CO-4 em qualquer altura.

Para os ciclistas mais preparados, é uma subida exigente mas absolutamente recompensadora. A estrada é a mesma que serviu de chegada à Vuelta a España em várias ocasiões, o que lhe dá um estatuto quase mítico no mundo do ciclismo.

A partir de onde?

A base logística ideal é Cangas de Onís, a 12 quilómetros de Covadonga e a primeira capital do antigo Reino das Astúrias.

Daqui partem os autocarros, há ampla oferta de alojamento e restauração e é possível visitar a famosa Ponte Romana sobre o Rio Sella.

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