Share the post "BeReal ainda existe? O que aconteceu à app que era tendência"
O BeReal continua a existir e a funcionar em 2026, mas está muito longe da versão que conquistou o mundo em 2022. A aplicação francesa, que chegou a liderar as tabelas de downloads nos Estados Unidos e em vários países europeus, foi comprada em 2024 pela empresa de jogos móveis Voodoo por 500 milhões de euros, depois de perder cerca de três milhões de dólares por mês.
A queda começou logo a seguir ao pico. Entre outubro de 2022 e a primavera de 2023, os utilizadores diários caíram de 15 milhões para cerca de seis milhões, uma quebra superior a 60%. Sem publicidade nem subscrições, a empresa não tinha forma de sustentar os custos de um serviço usado diariamente por dezenas de milhões de pessoas.
O resultado prático, quatro anos depois: uma aplicação que sobreviveu ao esvaziamento do hype, mudou de dono, começou a vender espaço publicitário a marcas como a Nike e a Netflix e, pela primeira vez desde o lançamento, deixou de dar prejuízo.
Como funciona o BeReal, na prática
O BeReal funciona ao contrário da maioria das redes sociais. Em vez de deixar o utilizador escolher quando publicar, é a aplicação que decide: todos os dias, a uma hora aleatória e diferente, chega uma notificação a avisar que o “momento BeReal” começou. A partir daí, há apenas dois minutos para tirar uma fotografia, captada em simultâneo pela câmara frontal e pela câmara traseira do telemóvel, sem filtros e sem opção de escolher a melhor de várias tentativas antes de publicar.
Quem publica depois do prazo de dois minutos vê essa demora assinalada junto à fotografia, visível para os amigos. A ideia, segundo os fundadores, era mostrar o quotidiano tal como ele é (o pequeno almoço, o posto de trabalho, o autocarro), em vez das fotografias cuidadosamente escolhidas típicas de outras redes sociais.
Para além da fotografia diária, o BeReal tem outras funcionalidades: os RealMojis (reações feitas com a própria cara do utilizador, em vez de emojis genéricos), um mapa que mostra onde os amigos publicaram a partir do mundo, e um arquivo de memórias com as fotografias anteriores. A aplicação é gratuita e está disponível em português, tanto na App Store como na Google Play.
De fenómeno global a números no vermelho
O BeReal nasceu em 2020, fundado por Alexis Barreyat e Kévin Perreau, dois antigos colaboradores da GoPro. O conceito era simples: uma notificação diária, num horário aleatório, que dava aos utilizadores apenas dois minutos para tirar uma fotografia com a câmara frontal e traseira em simultâneo. Sem filtros, sem curadoria de conteúdo, sem algoritmo a decidir o que aparece primeiro.
Em 2022, tornou-se app do ano na App Store da Apple e ultrapassou o Instagram e o TikTok nas tabelas de popularidade em vários mercados. Mas o mesmo formato que o tornou viral, um só momento por dia, sem espaço óbvio para publicidade, também limitou desde o início as formas de gerar receita.
Entre outubro de 2022 e a primavera de 2023, os utilizadores diários caíram de 15 milhões para seis milhões. Sem publicidade, sem assinaturas pagas e com uma equipa a crescer, o projeto tornou-se insustentável.
Os 500 milhões de euros que a Voodoo pagou pelo BeReal
Em junho de 2024, a Voodoo, uma editora francesa de jogos e aplicações móveis, com mais de 800 trabalhadores e milhares de milhões de downloads acumulados, anunciou a compra do BeReal por 500 milhões de euros.
O valor pode parecer elevado para uma empresa que ainda perdia dinheiro, mas representa uma descida face à avaliação de pico do BeReal em 2022, então estimada em cerca de 600 milhões de dólares. Ainda assim, a maioria das redes sociais que não atinge escala global acaba por falhar sem nunca chegar a uma venda com este valor, o que levou vários analistas do setor a considerar o desfecho positivo para os fundadores.
Depois da compra, a Voodoo despediu cerca de 30 trabalhadores do BeReal e travou o crescimento a qualquer custo, com o objetivo de chegar ao equilíbrio financeiro em vez de continuar a queimar dinheiro dos investidores.
Como o BeReal aprendeu finalmente a fazer dinheiro
Durante os primeiros três anos, o BeReal não teve um único anúncio. Isso mudou em abril de 2025, quando a aplicação introduziu publicidade no feed e “brand takeovers”, dias inteiros patrocinados por uma marca, mantendo o formato de dupla câmara que a tornou reconhecível. Mais de 200 marcas já testaram este tipo de campanha, incluindo a Nike, a Netflix e a Amazon.
Segundo os resultados financeiros divulgados pela Voodoo relativos a 2024, a empresa faturou 623 milhões de euros no total (mais 20% do que no ano anterior), com um EBITDA de 135 milhões de euros. Dentro desse conjunto, o BeReal atingiu o ponto de equilíbrio e estabilizou o número de utilizadores, segundo a própria Voodoo.
Em 2026, a aplicação mantém-se com cerca de 40 milhões de utilizadores ativos mensais, longe dos números de pico de 2022, mas estável. A publicidade continua modesta face aos gigantes das redes sociais, mas já chega para sustentar a operação sem depender de capital externo constante.
A lição financeira por trás do hype das apps
Ter 40 milhões de utilizadores não chega para valer como negócio, é preciso gerar receita própria. Em 2022, o BeReal valia 600 milhões de dólares só com base no hype. Hoje sobrevive com publicidade a marcas, sem voltar a crescer. A diferença resume o que separa uma moda passageira de um negócio a sério: não é o número de downloads, é a receita gerada ano após ano.
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