Miguel Pinto
Miguel Pinto
28 Set, 2026 - 13:00

Bulnes: a aldeia escondida entre os Picos da Europa nas Astúrias

Miguel Pinto

Bulnes é uma viagem que fica na memória não pelo que tem, mas pelo que não tem: estradas, trânsito, pressa. No coração dos Picos da Europa.

aldeia de Bulnes

Bulnes é uma aldeia escondida no coração dos Picos de Europa a que não se chega de carro, onde o silêncio só é interrompido pelo som do rio e onde as casas de pedra parecem ter nascido da própria montanha. É, para muitos viajantes, a prova de que ainda há lugares em Espanha capazes de surpreender quem pensa já ter visto tudo.

Está bem dentro do Parque Nacional dos Picos de Europa e é o único povoado das Astúrias sem acesso por estrada. Tem pouco mais de duas ou três dezenas de habitantes registados e divide-se em dois núcleos, Bulnes de Abaixo (La Villa) e Bulnes de Cima (Barrio del Castillo), encaixados entre grandes massas de rocha calcária.

Durante séculos, esta aldeia viveu praticamente isolada do resto do mundo. O caminho tradicional até Bulnes era o trilho, exigente, de cerca de duas horas a partir de Poncebos, além do caminho de montanha vindo de Sotres, e nunca existiram estradas com acesso a veículos.

Foi precisamente essa condição que transformou Bulnes num destino de culto para quem procura autenticidade e que levou, em 2001, à construção de uma das obras de engenharia mais curiosas das Astúrias, o funicular subterrâneo.

Como chegar a Bulnes

Existem hoje duas formas de chegar a Bulnes, e o ideal é mesmo combinar as duas.

picos da europa em Bulnes

De carro até Poncebos

O ponto de partida para qualquer visita a Bulnes é a aldeia de Poncebos. Para lá chegar, sai-se da estrada AS-114 junto a Arenas de Cabrales e percorrem-se cerca de seis quilómetros até Poncebos, com sinalização clara ao longo do percurso.

Em Poncebos existe uma zona de estacionamento junto à estação do funicular, embora, sobretudo no verão, o afluxo de visitantes seja elevado, não só por causa do funicular, mas também porque é dali que parte a célebre Ruta del Cares.

O funicular de Bulnes

A forma mais confortável de subir é o funicular de Bulnes, uma infraestrutura subterrânea inaugurada em setembro de 2001 que liga as povoações de Poncebos e Bulnes através de um túnel escavado na montanha.

Os números são impressionantes para uma obra tão discreta. Um percurso de 2,23 quilómetros, com um desnível vencido de 402 metros e uma inclinação máxima de 18,19%. A viagem demora cerca de sete minutos e cada carruagem tem capacidade máxima para 28 passageiros sentados.

Quem viaja com animais de estimação não precisa de os deixar para trás. Os cães são admitidos, desde que presos por trela e, no caso de raças consideradas potencialmente perigosas, com açaimo.

Os bilhetes podem ser comprados diretamente na bilheteira de Poncebos ou, para quem prefere garantir lugar com antecedência, através da plataforma online da companhia de transportes Alsa, que opera o funicular.

A pé, pela Canal del Texu

Para quem gosta de caminhar, existe uma alternativa muito mais recompensadora do ponto de vista paisagístico. É o trilho que sobe pela Canal del Texu, o mesmo caminho que, segundo a tradição local, já era percorrido em tempos romanos.

Trata-se de um percurso de cerca de dois quilómetros entre Poncebos e Bulnes, mas não deve ser subestimado. É necessário vencer um desnível de aproximadamente 400 metros, com inclinações que chegam aos 18%, sobre um terreno sinuoso e bastante pedregoso. Na prática, a subida é sempre em contínuo e a descida, embora mais rápida, também exige atenção ao piso irregular.

A combinação mais recomendada por quem já fez o percurso é subir a pé, aproveitando a energia da manhã e as vistas sobre o desfiladeiro, e descer de funicular, poupando os joelhos no final do dia. É, aliás, o conselho que se repete em praticamente todos os relatos de quem visitou o local.

O que ver em Bulnes

Chegado à aldeia, o programa é simples e, por isso mesmo, revigorante. Passear pelas ruas estreitas de Bulnes de Abaixo, sentar junto ao rio, provar a gastronomia local e simplesmente respirar fundo é, para muitos visitantes, razão suficiente para a subida.

O mirador do Naranjo de Bulnes. O ponto alto de qualquer visita é sem dúvida o miradouro situado na parte alta da aldeia, virado para o Picu Urriellu, o Naranjo de Bulnes.

Localizado na parte alta de Bulnes, em frente ao Picu Urriellu, este miradouro oferece uma das vistas mais diretas e reconhecíveis do maciço central dos Picos de Europa, deixando ver o vale do rio Bulnes, os dois bairros da aldeia e a grande parede calcária do Naranjo. O acesso faz-se por um caminho curto, mas com alguma inclinação, que vale sempre a pena.

As casas de pedra e os bairros históricos. A arquitetura tradicional de montanha, com telhados de lousa e construções que parecem confundir-se com a rocha envolvente, é por si só um dos grandes atrativos de Bulnes.

Não há multidões nem lojas de recordações. Apenas a vida quotidiana de uma aldeia que resistiu ao isolamento.

A gastronomia local. Depois do esforço da subida, os restaurantes e casas de turismo rural de Bulnes recompensam com pratos típicos de montanha, muitas vezes acompanhados de queijo de Cabrales, um dos produtos mais emblemáticos da região.

A subida ao Naranjo de Bulnes (para os mais experientes). Bulnes é também o ponto de partida para quem pretende chegar mais perto do Picu Urriellu.

A partir de La Villa, e antes de atravessar o rio, inicia-se uma subida a pé de cerca de dez minutos com vistas sobre o Picu Urriellu, sendo que, para quem pretende alcançar o topo, a subida completa pode demorar entre quatro a cinco horas.

Trata-se de um percurso de montanha exigente, reservado a caminhantes com preparação física e, para as escaladas mais técnicas, a alpinistas experientes.

Naranjo de Bulnes: símbolo dos Picos de Europa

picos em Bulnes

Impossível falar de Bulnes sem falar do Picu Urriellu, mais conhecido como Naranjo de Bulnes, a montanha que dá nome à aldeia e que é, provavelmente, a silhueta mais fotografada de toda a cordilheira Cantábrica.

Trata-se de uma silhueta perfeitamente contornada, situada no centro físico dos Picos de Europa, com uma altitude de 2.519 metros e considerada uma das cimeiras emblemáticas do alpinismo espanhol, sobretudo pela parede vertical de 550 metros da sua face oeste.

A origem do nome é, curiosamente, ainda hoje discutida. A primeira referência escrita ao Picu Urriellu com o nome de Naranjo de Bulnes é atribuída ao geólogo e engenheiro alemão Wilhelm Schulz, que em 1855 publicou o primeiro mapa topográfico e geológico das Astúrias, embora a etimologia exata continue por esclarecer.

Se não pretende escalar, há alternativas mais tranquilas para admirar a montanha. Entre os miradouros mais recomendados estão o Mirador Pozo de la Oración, na aldeia de Póo, e o Mirador Pedro Udaondo, em Asiegu, de onde é possível ver o Urriellu ganhar tons alaranjados e rosados ao fim da tarde.

O essencial dos Picos de Europa

A visita a Bulnes ganha ainda mais sentido quando integrada numa passagem mais longa pelos Picos de Europa, o primeiro parque nacional criado em Espanha e um dos espaços naturais mais visitados do país.

A Ruta del Cares

Conhecida como o “desfiladeiro divino”, esta rota atravessa o coração do Parque Nacional dos Picos de Europa acompanhando o curso do rio Cares, que corre no fundo do desfiladeiro.

São cerca de onze quilómetros de caminho, por vezes com apenas alguns metros de largura, atravessando pontes suspensas e túneis escavados na rocha, entre a aldeia asturiana de Poncebos e a leonesa de Caín.

É considerado um dos percursos pedestres mais espetaculares de Espanha e o ponto de partida coincide, precisamente, com o de acesso a Bulnes.

Lagos de Covadonga

Montanhas dos Picos da Europa nas Astúrias

Situados na parte asturiana do Parque Nacional, os Lagos de Covadonga são um dos cenários naturais mais celebrados de toda a Espanha, formados pelos lagos Enol e Ercina, de origem glaciar.

A poucos quilómetros da subida encontra-se o Mirador de la Reina, com uma das panorâmicas mais amplas de toda a região e mais acima os miradouros do Rei, do Príncipe e de Entrelagos, todos com vistas privilegiadas sobre as águas cristalinas e os prados de montanha.

Santuário de Covadonga

A poucos minutos dos lagos, o santuário é um dos lugares mais simbólicos da história espanhola, associado à lenda do início da Reconquista.

O percurso inclui a Santa Gruta de Covadonga, com uma pequena capela dedicada à Virgem de Covadonga, popularmente conhecida como “La Santina”, e, muito perto, a Basílica de Santa María la Real, construída em pedra rosada e rodeada de montanhas.

Cangas de Onís

Boa parte dos roteiros pelos Picos de Europa começa em Cangas de Onís, uma localidade que serve de base ideal para explorar a zona e a costa oriental das Astúrias, e que recebe os visitantes com uma ponte romana da qual pende a Cruz da Vitória, símbolo das Astúrias. É também o principal ponto de partida para transportes públicos rumo aos Lagos de Covadonga.

Arenas de Cabrales e o queijo de Cabrales

Já perto de Poncebos, Arenas de Cabrales é uma das povoações mais conhecidas da comarca, famosa pela produção de queijo, com uma gruta-museu onde é possível conhecer a história e o processo de fabrico deste produto emblemático. É a paragem perfeita para provar, num só prato, todo o sabor das Astúrias de montanha.

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