O carro próprio continua a ser o meio de transporte habitual de 87,1% dos condutores em Portugal. Mas metade admite trocá-lo por uma alternativa mais sustentável, desde que funcione no dia a dia. Os números são do Telpark Impacta, um estudo divulgado em outubro de 2026 e baseado em 1.112 entrevistas a condutores residentes no país.
A razão para a resistência é prática. O conforto (62,5%) e a rapidez (61,2%) pesam muito mais do que o ambiente, que só 4,5% dos inquiridos apontam como critério de escolha. E o maior travão à mudança é o tempo de deslocação, referido por 58,3%.
Para quem está a ponderar a troca, a pergunta que interessa é outra: carro ou transportes públicos, qual sai mais barato no seu caso? A resposta depende de três contas simples e de um custo que não desaparece mesmo que o carro fique na garagem.
O que dizem os números sobre a mobilidade dos portugueses
O retrato do estudo é claro. Depois do carro próprio, surgem os transportes públicos (6,7%), as deslocações a pé (4%), o veículo partilhado (1,2%) e, quase sem expressão, a bicicleta ou a trotinete (0,1%).
Ainda assim, a abertura existe. Mais de metade dos inquiridos (51,3%) diz estar bastante ou totalmente disponível para mudar de meio de transporte. Entre quem usa carro próprio, essa disponibilidade fica perto dos 49%.
O que falta, segundo os condutores, são alternativas reais (40,5%). Seguem-se o conforto e o controlo do tempo (38%), o custo económico (35,3%) e a falta de infraestrutura (29,2%). Como resume João Almeida, diretor comercial da Telpark, os condutores procuram “alternativas que funcionem no seu dia a dia, com previsibilidade, rapidez e facilidade de utilização“.
O tempo é o verdadeiro preço
Os Censos 2021 ajudam a perceber porquê. Segundo o INE, a viagem casa-trabalho de carro durava, em média, 18,8 minutos. Nos transportes públicos, 43,5 minutos, mais do dobro.
São cerca de 25 minutos a mais por viagem. Ida e volta, quase 50 minutos por dia. Para muitas famílias, esse tempo vale mais do que a poupança, para outras, é tempo útil para ler, trabalhar ou simplesmente não conduzir no trânsito.
Quanto custa ir de carro para o trabalho
O erro mais comum é comparar o passe apenas com o combustível. O custo real do carro tem duas partes, e só uma delas muda quando se deixa de o usar.
Os custos variáveis dependem dos quilómetros: combustível ou eletricidade, portagens, estacionamento e desgaste (pneus, travões, revisões mais frequentes). São estes que se poupam ao trocar.
Os custos fixos, como seguro, IUC, inspeção e desvalorização, mantêm-se enquanto o carro existir. Quem deixa de conduzir no dia a dia mas não vende o carro continua a pagá-los. Para uma visão completa, pode consultar o guia sobre quanto custa ter um carro.
A fórmula do combustível
Para calcular o gasto mensal em combustível, basta multiplicar três valores:
Quilómetros por mês × consumo médio (litros/100 km) ÷ 100 × preço do litro
Um exemplo ilustrativo: quem faz 20 km para cada lado, em 22 dias úteis, percorre 880 km por mês. Com um consumo de 6 litros aos 100 km, gasta 52,8 litros. A 2,20 euros por litro (valor hipotético, apenas para o cálculo), são 116,16 euros por mês só em combustível. A este valor somam-se o estacionamento no destino e as portagens, quando existem.
O preço dos combustíveis muda todas as semanas. Use o preço médio atual publicado pela DGEG para fazer as contas com valores reais. Depois, compare o total com o passe da sua zona.
Que passes existem e quanto custam
Os passes mensais têm preços fixos e previsíveis, o que facilita o orçamento:
- Navegante Metropolitano (18 municípios da Área Metropolitana de Lisboa) – 40 euros/mês;
- Navegante Municipal – 30 euros/mês;
- Navegante Família Metropolitano – 80 euros/mês para todo o agregado;
- Andante Metropolitano (Área Metropolitana do Porto) – 40 euros/mês;
- Andante Municipal ou 3 zonas – 30 euros/mês;
- Passe Ferroviário Verde (rede CP, exceto Alfa Pendular) – 20 euros por 30 dias.
No exemplo anterior, o passe metropolitano de 40 euros representa cerca de um terço do gasto em combustível. Por ano, são 480 euros (40 × 12) contra 1.393,92 euros (116,16 × 12), uma diferença de 913,92 euros, antes de contar estacionamento e desgaste.
Quem faz deslocações regulares de comboio entre cidades tem ainda o Passe Ferroviário Verde, que custa 20 euros por mês e é válido em quase toda a rede da CP, incluindo os comboios urbanos de Lisboa e do Porto.
O passe também conta no IRS
Há um benefício fiscal que muitos esquecem. O Código do IRS permite deduzir 100% do IVA pago nos passes mensais, desde que a fatura tenha o NIF e seja comunicada às Finanças (artigo 78.º-F do CIRS).
Num passe de 40 euros, com IVA à taxa reduzida de 6% incluído (taxa do continente), o imposto é de cerca de 2,26 euros por mês. Ao fim de um ano, são cerca de 27 euros a abater ao IRS. Este valor entra no limite global de 250 euros por agregado, partilhado com outras deduções por exigência de fatura.
Como testar a mudança sem arriscar
Não é preciso decidir de uma vez. Para muitas famílias, a solução mais económica é combinar os dois meios, em vez de escolher um.
A primeira hipótese é o modelo misto: ir de carro até um parque perto de uma estação e fazer o resto do percurso de comboio ou metro. Evita-se o trânsito e o estacionamento caro no centro, e o tempo de viagem fica mais previsível. O próprio estudo mostra que a certeza de encontrar lugar pesa no planeamento das deslocações.
Depois, há o teste de um mês. Compre o passe, deixe o carro em casa nos dias úteis e registe o tempo de cada viagem. No fim, compare o que gastou com o habitual. Se a diferença de tempo for aceitável, a poupança está à vista. Se não for, volta-se atrás sem prejuízo, pois, perdeu, no máximo, o valor de um passe.
Para facilitar, as aplicações dos operadores mostram horários e posição dos veículos em tempo real. Em Lisboa, por exemplo, já é possível acompanhar autocarros e comboios na app navegante.
A decisão de vender o carro é outra conta. Só faz sentido quando os transportes cobrem quase todas as deslocações da família, incluindo fins de semana e imprevistos.
Faça as contas antes de decidir
Lembra-se da pergunta inicial? Carro ou transportes públicos não tem uma resposta única. Tem a sua resposta, e ela cabe numa folha de papel: quilómetros por mês, preço do combustível, estacionamento e passe da zona.
No exemplo deste artigo, a diferença ultrapassa os 900 euros por ano. Mesmo que o seu caso dê metade, são cerca de 450 euros por ano. Faça o teste de um mês, os números dizem o resto.
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Autoridade Tributária e Aduaneira. (s.d.). Artigo 78.º-F – Dedução pela exigência de fatura (Código do IRS). Portal das Finanças. https://info.portaldasfinancas.gov.pt/pt/informacao_fiscal/codigos_tributarios/cirs_rep/Pages/irs78f.aspx
CP – Comboios de Portugal. (s.d.). Passe Navegante. https://cp.pt/info/w/navegante-pass
CP – Comboios de Portugal. (2026, setembro 27). Passe Ferroviário Verde válido nos Urbanos de Lisboa e Porto. https://www.cp.pt/info/e/artigo/29350/949945
STCP – Sociedade de Transportes Coletivos do Porto. (s.d.). Passes Andante. https://stcp.pt/pt/viajar/tarifas/titulos-intermodais-andante/passes-andante/
Telpark. (2026, outubro 14). Carro próprio domina mobilidade dos condutores portugueses mas metade admite mudar para uma alternativa mais sustentável [Comunicado de imprensa]. GCIMedia Group.