Share the post "Portugal tem quase 1,6 milhões de estrangeiros: a maioria são jovens em idade ativa"
Portugal terminou 2025 com 1.585.854 cidadãos estrangeiros a residir no país. O número consta no “Relatório de Migrações e Asilo 2025”, divulgado pela Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), e confirma que a população estrangeira deixou de ser um fenómeno de fronteira para passar a fazer parte estrutural da sociedade portuguesa, do mercado de trabalho às escolas, passando pela demografia do país.
O documento chega numa altura em que os números da imigração continuam a gerar debate público, sobretudo depois das divergências entre diferentes fontes oficiais ao longo dos últimos dois anos.
Por isso, é importante perceber não só quantas pessoas estrangeiras vivem em Portugal, mas também de onde vêm, porque chegam e como o Estado tem respondido a este crescimento.
Quantos estrangeiros vivem em Portugal
De acordo com a AIMA, em 31 de dezembro de 2025 residiam em Portugal 1.585.854 cidadãos estrangeiros, mais 38 mil que no ano anterior. É um aumento mais contido do que em anos anteriores, algo que a própria AIMA associa à estabilização das novas entradas em território nacional e à consolidação de uma comunidade estrangeira já instalada no país.
Este valor não coincide, porém, com o divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), que em junho apontou para 1.597.539 pessoas de nacionalidade estrangeira residentes no país no final de 2025, o equivalente a 14% da população total.
Para chegar a estes dados, o INE cruzou a informação da AIMA com dados administrativos de outras entidades, como a Segurança Social, as Finanças e o Ministério da Educação, o que explica a ligeira diferença entre os dois retratos estatísticos. Ainda assim, a tendência de fundo é a mesma nas duas fontes e aponta para um crescimento sustentado.
Entre 2021 e 2025, os residentes estrangeiros em Portugal mais do que duplicaram, um aumento de cerca de 849 mil pessoas. Para se ter uma ideia da rapidez desta transformação, basta olhar para o histórico recente. No final de 2017 residiam em Portugal pouco mais de 421 mil estrangeiros, o que significa que o número quase quadruplicou em menos de uma década.

Revisão estatística mudou a forma de contar
Um dos aspetos mais relevantes do novo relatório é de natureza metodológica. A AIMA explica que, ao longo de 2025, deu continuidade a um trabalho de correção e validação da sua base de dados iniciado no ano anterior, o que levou a integrar na contagem oficial não apenas quem tem título de residência válido, mas também pessoas com processos de regularização em curso e autorizações emitidas ao abrigo de regimes legais específicos.
Entre os casos contabilizados desta forma estão 66.740 beneficiários de proteção temporária, 50.695 pessoas com processos de manifestação de interesse já atendidos e a aguardar decisão, e 24.476 cidadãos com processos de reagrupamento familiar em fase de conclusão.
Esta mudança de critério ajuda a explicar por que motivo os números de imigração em Portugal têm oscilado tanto ao longo do último ano.
Estrangeiros: trabalho é o principal motivo
Se há um dado que resume o perfil da imigração em Portugal em 2025, é de que o trabalho esteve na origem de 95,7% das novas concessões de autorização de residência do ano.
No total, foram concedidos 337.880 títulos de residência, mais 55% do que em 2024, embora a AIMA sublinhe que este número reflete sobretudo a recuperação de processos pendentes há vários anos, e não apenas novas entradas no território.
O peso do trabalho confirma-se também na população estrangeira já instalada no país. A AIMA registava, em 2025, 482.818 cidadãos com autorizações de residência emitidas especificamente para o exercício de uma atividade profissional.
Destes, 402.314 encontravam-se em trabalho subordinado, 64.375 em atividade independente e 10.723 em atividade profissional altamente qualificada, um segmento que tende a crescer com as novas regras de acesso a vistos de trabalho qualificado.
Quanto ao perfil etário das novas concessões, o retrato é o de uma população maioritariamente jovem e ativa, Cerca de 93% dos novos títulos foram atribuídos a pessoas em idade potencialmente ativa, com destaque para a faixa entre os 18 e os 34 anos, que reuniu 177.906 novas autorizações.
Os menores entre 0 e 17 anos representaram 5,5% das concessões, e as pessoas com 65 ou mais anos apenas 1,6%.
Este perfil ajuda a explicar, aliás, por que motivo o crescimento da população estrangeira tem contribuído para atenuar o envelhecimento demográfico português: segundo o INE, a população em idade ativa ganhou peso relativo entre 2021 e 2025, apesar de o índice de envelhecimento nacional continuar a agravar-se.
Quais as principais nacionalidades

O Brasil mantém-se, de forma destacada, como a principal nacionalidade entre a população estrangeira em Portugal.
Só entre as novas concessões de 2025 foram atribuídos 115.709 títulos de residência a cidadãos brasileiros, um número muito acima de qualquer outra nacionalidade.
Seguem-se os cidadãos indianos, com 25.694 novos títulos, os nepaleses (17.689), os bengalis (17.499) e os paquistaneses (15.656).
No conjunto da população estrangeira residente, além do Brasil, destacam-se ainda comunidades como Cabo Verde, Nepal, Bangladesh e Guiné-Bissau entre as nacionalidades com maior expressão numérica no país, ligadas sobretudo a setores como a agricultura, a construção e a restauração.
Onde vivem os imigrantes em Portugal
A distribuição geográfica da população estrangeira mantém-se concentrada no litoral. A Grande Lisboa e a região Norte reuniam, em 2025, mais de metade de toda a população estrangeira residente no país (53,7%).
Já em termos relativos, ou seja, olhando para o peso dos imigrantes na população total de cada região, é o Algarve que se destaca, com 27,9% de população estrangeira, seguido de Lisboa (22,6%) e da Península de Setúbal (18,3%), reflexo direto da procura de mão de obra estrangeira no turismo e na construção nestas zonas do país.
Reagrupamento familiar
Além da imigração ligada ao trabalho, o relatório da AIMA dá também conta de 17.359 autorizações de residência concedidas por reagrupamento familiar em 2025, o equivalente a 5,1% do total de novas autorizações do ano.
No final do ano, havia ainda 24.476 pessoas com processos de reagrupamento já atendidos, mas em fase de conclusão, à espera de uma decisão final.
O documento regista também 2.685 autorizações de residência para investimento concedidas em 2025, além de 3.967 autorizações emitidas a familiares de titulares de vistos gold ao abrigo da lei que regula este regime.
E quem tem de sair do país?
O outro lado da política migratória portuguesa também ganhou expressão no último ano. Depois de décadas com um número residual de processos de afastamento, a AIMA retomou em força a aplicação do regime de retorno.
Só no primeiro semestre de 2025 foram emitidas 9.268 notificações para abandono voluntário do país, contra apenas 446 em todo o ano anterior.
Os processos de afastamento coercivo instaurados até então visavam sobretudo cidadãos oriundos do Brasil, da Argélia, de Marrocos e da Índia.