Share the post "Pelas margens do Zêzere: o rio que a história não conseguiu domar"
Nascido na Serra da Estrela, junto ao Cântaro Magro, o rio Zêzere percorre cerca de 200 quilómetros em direção a sudoeste até desaguar no Tejo, em Constância. No caminho, atravessa aldeias de xisto, vale de pinheiros e eucaliptos, e alimenta uma das maiores albufeiras do país.
É um rio com memória longa, de templários, de comunidades submersas, de gerações que viveram do que as suas margens davam. E é, também, um dos destinos de natureza mais subestimados de Portugal.
Este roteiro não tem pressa. Propõe dois dias, ou três, se quiser mesmo respirar fundo, pelas margens mais sedutoras do Zêzere, com paragens em Dornes, na Barragem de Castelo de Bode, e em alguns dos miradouros e praias fluviais que ficam pelo caminho.
Ponto de partida: chegar ao coração do país
O Zêzere banha o centro geográfico de Portugal e não é coincidência que seja aqui que o país parece mais fiel a si mesmo.
Para começar o roteiro pela zona mais rica em história e paisagem, o ideal é tomar como referência a cidade de Tomar, a cerca de 30 quilómetros a sul de Dornes. Não há forma mais honesta de fazer este roteiro do que de carro. As estradas são sinuosas, sim, mas são exatamente isso que as torna memoráveis.
Dornes, a aldeia que o tempo não devorou

Há um momento, quando se chega a Dornes, em que se percebe porque é que esta aldeia foi eleita uma das Sete Maravilhas de Portugal na categoria de Aldeias. É o momento em que o alcatrão dá lugar a calçada, e a vista se abre de repente sobre a albufeira de Castelo de Bode em três direções.
Dornes ocupa uma península de xisto rodeada pelas águas da albufeira, uma formação geográfica única que lhe valeu, ao longo dos séculos, um valor estratégico imenso. Foi precisamente por isso que a Ordem dos Templários a escolheu como posto avançado de vigilância durante a Reconquista Cristã. O rei D. Afonso Henriques doou estas terras à Ordem no século XII, e a sua presença ainda hoje se sente em cada pedra.
O que ver em Dornes
O ponto alto da aldeia, literalmente, é a Torre Pentagonal, uma das raridades da arquitetura medieval portuguesa. De planta com cinco lados, foi mandada edificar por Gualdim Pais sobre o que se acredita ter sido uma antiga torre romana, e servia de vigia sobre o curso do rio. Sobreviveu intacta durante séculos e é, hoje, o símbolo maior de Dornes.
Ao seu lado ergue-se a Igreja de Nossa Senhora do Pranto, também conhecida como Igreja Matriz de Dornes. Segundo a lenda, foi fundada pela Rainha Santa Isabel no século XIII e guarda a imagem de uma Nossa Senhora à qual são atribuídos milagres.
Mas Dornes não se conta apenas nos seus monumentos. Conta-se também nas suas ruelas de empedrado, nas casas caiadas de branco com janelas baixas, nos gatos que dormem nas soleiras. Vale a pena perder-se ali dentro durante uma manhã inteira, sem destino nem pressa.
Do pátio em frente à torre, a vista sobre a albufeira é de cortar a respiração, especialmente ao fim do dia, quando a luz dourada incide sobre a água e tinge tudo de âmbar.
Praia Fluvial de Dornes
A poucos minutos a pé do centro da aldeia encontra a Praia Fluvial de Dornes, uma das mais tranquilas e familiares da albufeira.
As águas são calmas e limpas, e o cenário, com a aldeia lá em cima, sobre o promontório, é o pano de fundo perfeito para um mergulho sem azáfama.
A Albufeira de Castelo de Bode e as suas praias

A Albufeira de Castelo de Bode é a consequência visível de uma das maiores obras de engenharia do Estado Novo. Estende-se ao longo de cerca de 60 quilómetros entre os concelhos de Tomar, Abrantes, Sardoal e Ferreira do Zêzere e é hoje um dos destinos de turismo de natureza e náutica mais procurados do Centro de Portugal.
A construção da Barragem de Castelo de Bode teve início em 1946, por ordem de Salazar, que determinou a construção de três barragens na bacia do Zêzere, Castelo de Bode, Bouçã e Cabril.
Foi inaugurada a 21 de janeiro de 1951, com a presença do próprio Salazar e do Presidente da República, Marechal Carmona. Na altura, era a maior central hidroelétrica do país.
Hoje, com 115 metros de altura e uma potência instalada de 159 MW, continua a ser uma das mais imponentes do território nacional.
O progresso teve, contudo, um preço humano. Com o enchimento da albufeira, várias aldeias foram submersas. As suas gentes foram obrigadas a abandonar casas, hortas, azenhas, e uma forma de vida inteira. Quando se olha para a vastidão tranquila da albufeira, vale a pena pensar no que está por baixo dessa superfície imóvel.
Praias e atividades náuticas

A albufeira é hoje ponteada por algumas das praias fluviais mais bonitas de Portugal.
Praia Fluvial do Trízio. Uma das mais completas da albufeira, no concelho da Sertã. Aqui fica o Centro Náutico do Zêzere, onde é possível alugar embarcações, praticar canoagem, jetski e wakeboard, ou simplesmente nadar numa piscina flutuante.
Tem bar, restaurante e parque de campismo. É uma praia que combina descanso e adrenalina sem pedir que escolha.
Praia Fluvial da Castanheira (Lago Azul). O nome popular diz tudo. As águas têm um tom de azul que parece pouco real a esta latitude. É uma das praias mais serenas da albufeira, ideal para quem quer paz e uma boa fotografia para a memória.
Terceira paragem: a barragem de Castelo de Bode
Mesmo que não seja uma entusiasta de infraestruturas, a Barragem de Castelo de Bode merece uma paragem. A dimensão da obra impõe respeito, com 115 metros de altura, betão armado com curvatura, e a vista sobre a albufeira a partir do paredão é uma das mais largas e serenas desta região.
A travessia sobre o paredão é uma das passagens mais frequentadas do vale do Zêzere e faz parte do percurso natural deste roteiro. Do outro lado, as estradas secundárias que acompanham as margens da albufeira revelam recantos que os GPS raramente encontram por iniciativa própria.
Quarta paragem: o centro geodésico de Portugal

A poucos quilómetros de Dornes, no Picoto da Melriça, encontra-se o Centro Geodésico de Portugal, o ponto matematicamente central do território nacional.
Uma pirâmide de alvenaria com nove metros de altura marca o local, e do seu topo é possível obter uma visão de 360 graus sobre um horizonte imenso, com a Serra da Lousã a um lado e, em dias de boa visibilidade, a Serra da Estrela ao fundo.
O Zêzere não é um rio que se mostra facilmente. Não tem a fama do Douro nem a monumentalidade do Tejo. Existe, com a sua obstinação tranquila, para quem tem a paciência de o procurar.
E quando se o encontra (numa curva da estrada, num reflexo dourado ao fim do dia, nas pedras de uma aldeia que sobreviveu a tudo) percebe-se que a melhor versão de Portugal é, muitas vezes, a que não está nos guias principais.