Share the post "Marinhas do Sal: passeio à aldeia portuguesa onde o sal nasce bem longe do mar"
A cerca de 30 quilómetros da costa atlântica, no sopé da Serra dos Candeeiros, existe uma aldeia onde o sal é o grande protagonista. Chama-se Marinhas do Sal, ali para as bandas de Rio Maior.
A paisagem surpreende pela presença de centenas de pequenos tanques de água salgada, casas de madeira e montes de cristais brancos que parecem saídos de uma povoação junto ao oceano. Mas o mar não está à vista.
O segredo encontra-se debaixo da terra, numa antiga jazida de sal-gema que alimenta uma das mais singulares explorações salinas da Europa.
Integrada no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros e distinguida como Aldeia de Portugal em 2022, Marinhas do Sal é um destino que combina património, natureza, história e tradições.
Marinhas do Sal: fenómeno a 30 quilómetros do mar
As Salinas de Rio Maior, também conhecidas como Salinas da Fonte da Bica, são o principal cartão de visita de Marinhas do Sal. A sua localização é, desde logo, um dos aspetos mais surpreendentes.
Encontram-se no interior do país, longe da costa, e dependem de uma fonte subterrânea de água salgada.
A explicação está na geologia da região. Há milhões de anos, esta zona esteve coberta pelo mar. Quando as águas recuaram, ficaram depositados no subsolo importantes vestígios de sal, que deram origem a uma extensa jazida de sal-gema.
A água da chuva infiltra-se nas rochas calcárias da Serra dos Candeeiros e circula através de falhas subterrâneas.
Ao atravessar essa formação salina, dissolve parte do sal acumulado e transforma-se numa salmoura natural. É esta corrente subterrânea que alimenta o poço situado no centro das salinas.
O resultado é uma água com uma concentração de sal aproximadamente sete vezes superior à da água do mar. Um fenómeno natural que permite manter, a cerca de 30 quilómetros do oceano, uma atividade tradicional normalmente associada às zonas costeiras.
As Salinas de Rio Maior são consideradas as únicas salinas interiores em funcionamento em Portugal e uma exploração deste género singular no contexto europeu.
Mais de 800 anos de história ligados ao sal

A relação de Marinhas do Sal com esta atividade remonta, pelo menos, à Idade Média. A primeira referência documental conhecida às salinas data de 1177, embora existam indícios de que o aproveitamento do sal-gema poderá ser bastante anterior, remontando à Pré-História e, possivelmente, ao período de ocupação romana.
Durante séculos, a produção de sal desempenhou um papel importante na economia local e na vida das comunidades que se fixaram nesta região.
O conhecimento sobre a exploração da água salgada foi transmitido entre gerações, preservando técnicas e práticas que continuam a fazer parte da identidade da aldeia.
A própria configuração do espaço ajuda a compreender a dimensão histórica desta atividade. Os cerca de 400 talhos, pequenos compartimentos de pedra ou cimento onde a água é distribuída para evaporar, formam um conjunto geométrico muito particular.
Quando estão cheios, refletem a luz do céu. Quando o sal começa a cristalizar, transformam a paisagem numa sucessão de superfícies brancas.
Como se produz o sal de Rio Maior?
O processo de produção mantém uma forte ligação aos métodos tradicionais e depende das condições meteorológicas, sobretudo da exposição solar e do vento.
A água salgada é retirada do poço central e conduzida através de regueiras até aos diferentes talhos. Aí, permanece exposta ao sol e ao ar, permitindo que a água evapore progressivamente e que o sal se deposite no fundo dos compartimentos.
À medida que os cristais se acumulam, são recolhidos manualmente e colocados em pequenos montes, onde permanecem a secar antes de serem preparados para comercialização.
Deste processo resulta o Sal de Rio Maior, um produto artesanal que conserva as características minerais da água de origem.
A produção inclui também a flor de sal, uma fina película de cristais que se forma à superfície da água quando esta atinge as condições necessárias para iniciar a cristalização.
Casas de madeira, artesanato e sabores tradicionais

Uma visita a Marinhas do Sal não fica completa sem percorrer o pequeno núcleo de casas de madeira que acompanha as salinas.
Estas construções, tradicionalmente associadas aos trabalhadores da exploração, foram recuperadas e adaptadas a novas funções, acolhendo lojas de artesanato, espaços de venda de produtos regionais, tabernas e restaurantes.
O conjunto confere à aldeia um ambiente muito próprio. Entre as construções de madeira, as ruas de pedra e os tanques de sal, existe uma atmosfera tranquila que convida a descobrir o espaço sem pressas.
Nas lojas é possível encontrar diferentes variedades de sal, flor de sal, produtos regionais e peças de artesanato. É também uma oportunidade para conhecer melhor a utilização deste recurso natural e levar uma pequena recordação de uma das atividades mais características da região.
A gastronomia tem igualmente lugar nesta experiência. Os restaurantes e espaços de restauração permitem provar sabores tradicionais, num contexto em que os produtos locais e a ligação ao território assumem especial importância.
Presépios de Sal: quando o Natal chega à aldeia

Durante a época natalícia, Marinhas do Sal ganha uma dimensão especial com a iniciativa Presépios de Sal. A tradição transforma os cristais produzidos na aldeia em matéria-prima para recriações artísticas da Natividade, através de peças esculpidas e moldadas em diferentes dimensões e estilos.
A exposição reúne habitualmente cerca de 30 presépios e utiliza dezenas de toneladas de sal na sua preparação. A iniciativa, promovida pela Cooperativa dos Produtores de Sal de Rio Maior com o apoio do município, integra ainda um programa de animação que pode incluir música, atividades para crianças e outras experiências.
As pequenas casas de madeira recebem iluminação e decoração natalícia, criando um ambiente diferente daquele que caracteriza a aldeia durante o resto do ano.