Share the post "Mafómedes e a Senhora da Serra: a aldeia mais remota do Porto e uma subida a 1416 metros"
Num recanto do concelho de Baião, escondida entre encostas escarpadas da Serra do Marão, existe uma aldeia que parece ter ficado suspensa no tempo. Chama-se Mafómedes e é considerada a povoação mais isolada do distrito do Porto.
Situada no sopé da Serra do Marão, na freguesia de Teixeira, é ideal para quem procura um dia de desconexão, ar puro e paisagens que parecem pintadas à mão.
Esta é uma das escapadinhas mais recompensadoras do Norte de Portugal. sobretudo quando o passeio se estende até ao trilho da Senhora da Serra.
Localizada a cerca de seis quilómetros do centro da freguesia de Teixeira, e encravada entre duas encostas íngremes da montanha, muito perto do cume, é ainda hoje um dos locais mais isolados de Baião.
É precisamente esse isolamento, hoje um trunfo turístico, outrora um desafio de sobrevivência, que torna a aldeia tão particular.
Mafómedes: história de pastorícia e isolamento
A história de Mafómedes não está escrita em grandes monumentos, mas na forma como a comunidade se adaptou, durante séculos, a um território difícil.
A aldeia conta atualmente com cerca de trinta habitantes, a maioria de idade avançada, que desde sempre se dedicaram à pastorícia (com predominância de ovelhas e cabras) e a uma agricultura de subsistência baseada em técnicas ancestrais, transmitidas de geração em geração.
Esse modo de vida rural, quase autossuficiente, é hoje o que atrai visitantes em busca de autenticidade: casas de granito, socalcos recuperados a pulso e um ritmo de vida ditado pelas estações, não pelo relógio.

A própria escola primária da aldeia, já sem alunos há muito, foi transformada no Albergue de Natureza de Mafómedes, um espaço de observação da natureza e de estadia em plena comunhão com a serra, prova de como a memória coletiva se reinventa sem se perder.
Vale a pena recordar, também, que todo este território de Baião tem uma ligação literária de peso.
Eça de Queirós andou pela região e fica-lhe a fama de se ter inspirado nestas paisagens e sabores para escrever “A Cidade e as Serras”, numa obra que imortalizou pratos regionais como o arroz de favas com frango frito.
Caminhar por Baião é, de certa forma, caminhar por um cenário que já encantou um dos maiores escritores portugueses.
Mafómedes e o trilho da Senhora da Serra
É na ligação entre a aldeia e a montanha que este passeio ganha verdadeiro fôlego. A partir de Mafómedes, o caminho sobe pela Serra do Marão em direção a um dos pontos mais altos e simbólicos da região, o miradouro e a capela da Senhora da Serra.
Ao longo do percurso, a vegetação acompanha cada curva do caminho, com carvalhos, fetos, castanheiros e giestas, que em alguns pontos chegam a atingir os dez metros de altura, formando um corredor verde que contrasta com a rocha nua da serra mais acima.
É frequente cruzar-se com o som de um regato ou com o gado a pastar nas encostas, recordando que esta continua a ser, acima de tudo, uma paisagem viva e trabalhada.

O destino final do trilho é a Capela da Senhora da Serra, situada praticamente na fronteira entre os distritos do Porto e Vila Real, no ponto mais alto da Serra do Marão, a 1416 metros de altitude.
Este miradouro assinala também a linha que separa a freguesia de Teixeira, em Baião, da freguesia de Fontes, em Santa Marta de Penaguião, e é um dos pontos de passagem obrigatórios de muitas provas de trail running e BTT que se realizam na serra.
Junto à capela encontra-se ainda o transmissor de telecomunicações do Marão, uma referência visual que se avista a grande distância, e que partilha o protagonismo da paisagem com a pequena ermida dedicada à padroeira da montanha.
O que mais pode ver e fazer em Mafómedes
Além da caminhada até à Senhora da Serra, a própria aldeia merece tempo de descoberta.
Vale a pena perder-se pelas ruas estreitas, observar a arquitetura de granito e aproveitar o miradouro natural sobre o vale, que por si só já justifica a visita, antes de explorar os recantos mais escondidos da povoação.
Para recuperar energias depois da caminhada, a Tasca do Valado, junto ao Albergue de Natureza, é uma paragem obrigatória.
Combina cozinha tradicional portuguesa com o enquadramento rústico da montanha, num ambiente que convida a demorar a refeição, com a Serra do Marão como pano de fundo.
E, claro, não se sai de Mafómedes sem provar o Biscoito da Teixeira, a iguaria mais associada a esta freguesia e presente em praticamente todas as romarias da região, um doce simples que resume bem a tradição gastronómica local.
Quem quiser prolongar a experiência gastronómica por Baião pode ainda procurar o anho assado com arroz de forno, os enchidos tradicionais, os vinhos da casta avesso e os doces regionais.