Miguel Pinto
Miguel Pinto
20 Ago, 2026 - 15:00

A floresta que cura: Mata do Bussaco entra para o restrito clube mundial do bem-estar

Miguel Pinto

Bussaco junta-se a um grupo de apenas quatro florestas terapêuticas no mundo. Saiba o que muda e como esta certificação beneficia a saúde.

Mata do Bussaco

Um pinheiro-do-buçaco com séculos de vida, o eco de uma nascente escondida entre fetos e o cheiro a terra molhada depois da chuva. Quem já caminhou pela Mata Nacional do Bussaco sabe que este não é um espaço verde como os outros.

Agora, essa sensação ganhou reconhecimento científico e internacional, que a mancha verde tornou-se, oficialmente, a primeira Floresta Terapêutica certificada da Península Ibérica.

A distinção foi entregue numa cerimónia realizada no Espaço Educativo da Mata Nacional do Bussaco, e coloca este território centenário, situado na freguesia do Luso, concelho da Mealhada, num grupo muito restrito.

Apenas quatro florestas em todo o mundo têm esta certificação, que junta o Bussaco à Benediktinerstift, na Áustria, e a Lahnstein e Bad Nauheim, na Alemanha.

Bussaco: o que é uma floresta terapêutica

O conceito pode soar recente, mas assenta na ideia muito antiga de que a natureza cura. A certificação de Floresta Terapêutica é atribuída pelo Gabinete Internacional de Certificação de Florestas Terapêuticas (Healing Forest – International Certification Office) e reconhece espaços naturais com condições botânicas, ambientais e sensoriais comprovadamente benéficas para a saúde física e mental de quem os visita.

Não se trata apenas de um passeio agradável ao ar livre. A prática remete para o conceito japonês de shinrin-yoku, ou banho de floresta, desenvolvido no Japão a partir da década de 1980 como forma de promover a saúde pública através do contacto consciente com o ambiente natural.

Estudos conduzidos por investigadores japoneses associam esta prática à redução dos níveis de cortisol, à diminuição da pressão arterial e do ritmo cardíaco, ao reforço do sistema imunitário e a melhorias significativas na qualidade do sono e na gestão da ansiedade.

Ao contrário de uma simples caminhada, o banho de floresta convida a abrandar o passo, a silenciar o ruído mental e a envolver todos os sentidos: ouvir o vento nas copas, sentir a textura da casca das árvores, reparar nos aromas libertados pela vegetação. É essa experiência sensorial completa que a certificação vem validar cientificamente no Bussaco.

Palácio do Bussaco

Como se processou a certificação

O processo, descrito pela própria Fundação Mata do Bussaco (FMB) como particularmente complexo e moroso, foi conduzido pela Destinature, agência para o desenvolvimento do turismo de natureza da qual a FMB faz parte integrante, com a colaboração do Grande Hotel do Luso, parceiro de longa data da fundação.

O certificado foi entregue por Stefanie Frech, coordenadora do Gabinete Internacional de Certificação de Florestas Terapêuticas e tem validade até 17 de julho de 2031.

A cerimónia incluiu ainda o descerramento da placa identificativa do novo Trilho de Floresta Terapêutica e uma experiência imersiva que convidou os participantes a sentir, através dos sentidos, o potencial terapêutico desta mata centenária.

Pela primeira vez, o Bussaco deixa de ser visto apenas como um património que importa preservar e passa a ser reconhecido também como um espaço que produz um benefício público direto para a saúde de quem o visita.

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Bussaco: uma floresta com séculos de história

Para perceber por que motivo o Bussaco reunia as condições ideais para esta certificação, vale a pena recuar no tempo.

A história desta mata remonta ao século XVII, quando em 1628 o território foi entregue à Ordem dos Carmelitas Descalços, que ali estabeleceu um espaço de recolhimento e oração conhecido como Deserto Carmelita.

Foram os monges quem, ao longo de gerações, cuidaram da vegetação e contribuíram para transformar o Bussaco num verdadeiro santuário botânico, classificado hoje como Monumento Nacional.

Essa combinação de património natural raro, com árvores centenárias de espécies vindas de todo o mundo, e de património edificado único, como a Via-Sacra, as ermidas do Sacromonte ou o icónico Palace Hotel do Bussaco, faz desta mata um caso singular na Europa.

A certificação como floresta terapêutica soma-se agora a outro objetivo de longo prazo da fundação, potenciando a candidatura da Mata Nacional do Bussaco a Património Mundial da UNESCO,.

Uma nova experiência no Bussaco

Floresta do Bussaco

Na prática, esta certificação abre a porta a um novo tipo de experiência de visita. A mata passa a integrar uma rede internacional de destinos vocacionados para o turismo de saúde e bem-estar, o que deverá atrair um perfil de visitante diferente.

O novo Trilho de Floresta Terapêutica, inaugurado durante a cerimónia de certificação, é o primeiro percurso pensado especificamente para esta finalidade e deverá servir de base ao desenvolvimento de programas regulares que aproximem natureza, saúde e ciência.

A ideia é que estes programas se prolonguem no tempo, com atividades orientadas por profissionais e sustentadas por investigação científica em parceria com universidades portuguesas.

Assim, e ao contrário de um retiro de bem-estar convencional, a experiência não depende de equipamentos ou de infraestruturas sofisticadas.

Basta caminhar devagar, respirar fundo e prestar atenção aos detalhes que normalmente passam despercebidos. Inspire-se no Bussaco.

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