Share the post "Semana Cultural dos Cemitérios leva história, arte e memória a vários pontos do país"
Entre lápides, jazigos, árvores centenárias e símbolos que muitas vezes passam despercebidos, os cemitérios guardam uma parte considerável da história das cidades. É precisamente esse património, nem sempre fácil de olhar ou de interpretar, que está no centro da 5.ª Semana Cultural nos Cemitérios, que decorre de 10 a 18 de outubro de 2026.
Promovida pela Câmara Municipal de Lisboa, a iniciativa regressa com um programa que se estende muito para além dos principais cemitérios da capital.
São visitas guiadas, percursos temáticos, visitas noturnas, conferências, exposições, conversas, oficinas, atividades para famílias e momentos de reflexão que procuram mostrar estes espaços por vários ângulos. História, arquitetura, arte funerária, arqueologia, natureza, filosofia e antropologia cruzam-se ao longo de dez dias.
Descobrir o que os cemitérios contam

A programação da 5.ª Semana Cultural nos Cemitérios assume uma dimensão nacional. Além de Lisboa, estão previstas iniciativas em locais como Mértola, Coimbra, Santarém, Torres Vedras, Vila Franca de Xira, Setúbal, Porto, Palmela, Caldas da Rainha, Figueira da Foz e Almeida, entre outros.
É uma escolha que faz sentido. Um cemitério não é apenas um conjunto de sepulturas. A sua arquitetura, os materiais utilizados, a vegetação, os símbolos e as próprias pessoas ali sepultadas ajudam a reconstruir diferentes momentos da vida de uma comunidade.
No Porto, por exemplo, o Cemitério da Lapa será o ponto de partida para uma viagem pelo século XIX através das histórias de personalidades cujos percursos passaram pelo Porto, pelo Brasil e por várias cidades europeias.
A visita, intitulada Todos os caminhos vão dar à Lapa. Viagens, partidas e regressos no Porto oitocentista, propõe justamente uma leitura social e cultural da cidade a partir daquele espaço de memória.
Em Vila Franca de Xira, a atenção recai sobre a simbologia presente em alegorias, anjos, árvores, flores, retratos, bustos, azulejos, calçada portuguesa e ferro forjado.
Em Coimbra, o Cemitério da Conchada será percorrido através das suas personalidades, monumentos funerários e da relação com a história artística e cultural da cidade.
Dos grandes jazigos à observação das aves
Lisboa concentra uma parte particularmente significativa da programação. O Cemitério dos Prazeres volta a assumir protagonismo, com propostas tão diferentes quanto um percurso maçónico, uma visita dedicada à mitologia clássica, a abertura do jazigo dos Duques de Palmela, o lançamento de um livro e visitas noturnas.
O jazigo dos Duques de Palmela, concluído em 1849, é considerado um dos maiores mausoléus privados da Europa.
O espaço tem capacidade para cerca de 200 corpos e alberga obras escultóricas de elevado valor artístico, incluindo peças associadas a nomes como Canova, Calmels e Teixeira Lopes.
Durante a Semana Cultural, será possível entrar no mausoléu e conhecê-lo ao ritmo de cada visitante, com acompanhamento especializado.
Quando a luz desaparece, a leitura do espaço muda. As visitas noturnas aos Prazeres e ao Cemitério do Alto de São João exploram precisamente essa transformação.
A iluminação mais baixa, as sombras e os detalhes arquitetónicos criam uma perceção diferente dos monumentos, das esculturas e da simbologia funerária. E existe ainda a paisagem de Lisboa iluminada, vista a partir dos Prazeres.
Mas nem tudo passa pela pedra. No Cemitério de Carnide, uma atividade convida a descobrir as aves que vivem ou passam por este espaço. Entre novembro de 2024 e março de 2026, a Câmara Municipal de Lisboa inventariou a avifauna dos nove cemitérios da cidade e identificou 57 espécies. Carnide destacou-se com 40 espécies registadas, incluindo aves residentes e outras que atravessam a cidade durante a migração pós-nupcial entre a Europa e África. De repente, aquele lugar que associamos ao silêncio ganha asas. Literalmente.
Flores, mitologia e mensagens escondidas

A arte funerária ocupa também um lugar importante no programa. A exposição e visita Flores de Pedra, nos Prazeres, parte de uma tradição particularmente curiosa: a linguagem das flores.
No século XIX, diferentes flores podiam transmitir mensagens específicas. Essa simbologia também chegou aos túmulos, onde flores esculpidas em pedra funcionavam como uma espécie de vocabulário silencioso destinado a familiares, amigos e gerações futuras.
A atividade percorre a exposição instalada na capela e depois segue para o exterior, entre monumentos funerários, para revelar plantas, símbolos e histórias associados a esta tradição.
A mitologia clássica também regressa ao palco, ou melhor, ao cemitério. Em Entre o Olimpo e a Eternidade, os participantes são convidados a identificar figuras como Hermes, Clio e Nyx, além de símbolos como a coruja, a ampulheta, as papoilas-dormideiras e os morcegos.
O percurso mostra como o imaginário da Antiguidade encontrou lugar na arte funerária lisboeta. É daqueles casos em que olhar com um pouco mais de atenção muda tudo.
Falar sobre a morte sem fugir ao tema
A 5.ª Semana Cultural inclui ainda uma parceria com o Goethe-Institut Portugal e o festival Falar sobre a morte (nunca matou ninguém), alargando o programa a outras formas de abordar a finitude.
Entre as propostas está uma sessão online dedicada à pergunta O que acontece depois de morrermos?, centrada na forma como os adultos podem conversar com as crianças sobre a morte. A questão parece simples. Na prática, não é.
As crianças perguntam, os adultos hesitam e, muitas vezes, ninguém sabe muito bem por onde começar. A oficina propõe precisamente um espaço para pensar sobre essas perguntas e sobre a dificuldade, mas também a importância, de falar sobre a morte.
O programa inclui igualmente uma visita ao Museu Arqueológico do Carmo, em Lisboa, para explorar a antiga igreja do Carmo e as práticas rituais, devocionais, artísticas e de mecenato relacionadas com a morte e a vida da alma.
No Cemitério Alemão, por outro lado, a proposta assume um carácter mais contemplativo, convidando à reflexão sobre a finitude, o legado e aquilo que permanece depois da morte.
Programação também para famílias

A morte pode parecer um tema estranho para uma atividade destinada a crianças. E, no entanto, o programa mostra que pode ser justamente uma oportunidade para fazer perguntas sobre a vida.
Nos Prazeres, a atividade Qual é o mistério? Num cemitério com tanta História! foi pensada para crianças dos 4 aos 7 anos acompanhadas por um adulto.
A proposta passa pela descoberta de símbolos, animais, brasões, edifícios e outros elementos que transformam o cemitério numa pequena cidade dentro da cidade.
No Alto de São João, outra oficina, destinada a famílias com crianças dos 7 aos 11 anos, parte de uma pergunta provocadora: será que a vida mora num cemitério?
Através da observação de monumentos e do diálogo, a iniciativa procura mostrar que um espaço associado à morte também pode falar de vida, relações, memória e comunidade.