Marta Maia
Marta Maia
21 Out, 2021 - 10:30

6 conselhos para conseguir o spread mais baixo do mercado

Marta Maia

Conseguir um spread mais baixo é uma das principais lutas de quem pede dinheiro aos bancos. Saiba que armas tem para sair vitorioso.

Spread mais baixo

Conseguir um spread mais baixo é uma luta constante para quem pede dinheiro emprestado ao banco. Numa altura em que a Euribor está negativa , há instituições que compensam com o spread e, no final das contas, o consumidor acaba por pagar sempre mais do que deseja.

Como pode, então, convencer o seu banco a atribuir um spread mais baixo ao seu crédito? Fomos saber o que pode fazer e que contas os bancos fazem para chegar ao valor ideal.

Qual a diferença entre taxa de juro e spread?

Ao pedir um crédito, o banco irá apresentar-lhe em termos percentuais quanto terá de pagar de juros pelo montante que pretende, ou seja, a taxa de juro.

Apresentar-lhe-á duas taxas de juro: a Taxa Anual Nominal (TAN) que representa quanto vai pagar de juros pelo montante que pediu e a Taxa Anual Efetiva Global (TAEG) que representa, em termos percentuais, a totalidade de encargos que terá de pagar sobre o valor que o banco lhe empresta. A TAEG inclui, assim, os juros e restantes custos como comissões e seguros.

Mas voltemos à TAN. Se o crédito for a taxa indexada, significa que tem duas componentes: o indexante (a Euribor) e o spread.

A Euribor traduz o custo do dinheiro no mercado interbancário, ou seja, quanto custa ao banco pedir no mercado interbancário o dinheiro que lhe vai emprestar. Por outras palavras, quanto terá o banco de pagar pelo dinheiro que lhe vai emprestar.

O spread representa a margem de lucro do banco no empréstimo que lhe concedeu. E este pode variar já que depende de vários fatores.

Como é que os bancos definem o spread?

Em todos os negócios, a margem de lucro depende do risco do próprio negócio. Com os bancos esta premissa também é verdadeira.

Sendo assim, tenha em conta que, na definição do spread que lhe irá cobrar, o banco irá ter em conta:

  • O seu perfil de risco de crédito;
  • O valor do empréstimo;
  • A relação entre o valor do empréstimo e o valor do bem que der como garantia;
  • A contratação de outros produtos e serviços bancários, como por exemplo, seguros, cartões de crédito.
Casal a analisar orçamento familiar

O seu perfil de risco de crédito

O seu perfil de risco de crédito não é mais do que o seu historial creditício, ou seja, como cumpriu o pagamento de outros empréstimos que pediu.

Para o avaliar, os bancos recorrem à central de risco do Banco de Portugal. Aí, e porque lhe deu autorização para tal quando pede o crédito, os bancos vão obter o seu Mapa de Responsabilidades de Crédito.

Se alguma vez entrou em incumprimento, essa informação consta deste Mapa e será um fator que agravará o seu risco de crédito. Por isso, o spread que lhe será cobrado será superior àquele que teria se nunca tive tido qualquer prestação em atraso.

O valor do empréstimo

Este é um tema controverso. De facto, com o mesmo spread, quanto maior o valor que pedir, mais o banco ganha. Mas, com a ilusão de que está a pagar menos spread ao aumentar o valor está de facto a dar mais dinheiro a ganhar ao banco. Por isso, para valores maiores, o banco faz spreads mais baixos para o”prender”.

Vejamos um exemplo:

Se fizer um empréstimo de 100.000€, com spread de 2%, o total que paga de spread é de 2.000€.

Mas se fizer um empréstimo de 300.000€, com um spread de 1,5%, o total que irá pagar de spread é de 4.500€.

A relação entre o valor do empréstimo e o valor do bem que der como garantia

Mais uma vez, está em causa o risco do dinheiro que o banco lhe empresta.

Se o seu crédito for para comprar um eletrodoméstico, não irá apresentar nenhum bem como garantia do seu pagamento. E, por isso, o spread aplicado ao seu crédito é alto.

Mas se como garantia apresentar um depósito a prazo que fez junto do banco, então, como o banco tem onde ir buscar o reembolso do dinheiro que lhe emprestou, o seu spread será mais baixo.

O mesmo acontece no crédito habitação. Como a casa é dada como garantia do pagamento, ou seja, o banco faz uma hipoteca sobre o imóvel, o spread é mais baixo.

Contratação de outros produtos e serviços bancários

A contratação de outros produtos bancários é outro dos fatores que os bancos identifica na definição do spread do seu crédito.

O que paga em cada produto bancário que contrata junto do seu banco tem incluído no preço que paga por ele, ou seja, nas comissões, a margem de lucro do banco. Assim, obtendo lucro com outro produto, o banco pode reduzir a margem de lucro no seu crédito, ou seja, no spread.

Os bancos podem atribuir um spread mais baixo do que o habitual?

A resposta a esta pergunta é fácil: sim, podem! De uma forma simples, o spread é a margem de lucro que o banco ganha por cada empréstimo concedido. Como qualquer margem, o spread é negociável.

Porque o crédito é um negócio entre si e o banco, a negociação vai sempre depender do que cada um tem para oferecer. Assim, e tendo por base os fatores que contribuem para a formação do spread, terá de oferecer ao seu banco algumas vantagens e garantias para convencê-lo a aceitar um spread mais baixo.

Como chegar a um spread mais baixo?

Como lhe dissemos, o pedido de crédito é uma negociação entre o cliente e o banco. De um lado, o banco empresta o dinheiro em troca de uma remuneração sobre o valor emprestado (o seu lucro); do outro, o cliente recebe o dinheiro em troca da promessa de devolver o dinheiro acrescido dos juros, ou seja, do pagamento dessa mesma remuneração.

O que quer isto dizer? Que quanto mais garantias der ao banco de que irá cumprir os seus compromissos financeiros, ou seja, irá pagar o valor que este lhe emprestou, mais fácil vai ser convencê-lo a dar-lhe um spread mais baixo, porque o risco do negócio também é menor.

Vamos, então, passar à prática e dar-lhe alguns exemplos do que pode fazer para conquistar o spread mais baixo do mercado.

1

Mantenha um vínculo laboral estável

Sabemos que não é uma missão fácil nos dias de hoje, mas ajuda muito a dar ao banco uma garantia de que vai mesmo devolver o que pediu emprestado.

Um vínculo laboral instável significa que há o risco de ficar desempregado e sem meios de cumprir as obrigações que assumiu.

Idealmente, um contrato sem termo é a arma mais forte para conseguir um spread mais baixo. No entanto, os bancos também se adaptam à realidade do país e se tiver um contrato a termo com mais de dois anos já consegue negociar.

2

Tenha um historial de crédito sem incumprimentos

Nunca ter estado em incumprimento é um forte argumento para negociar o spread. Note que os bancos querem assegurar que cumpre todos os compromissos financeiros que assumiu (mesmo nos cartões de crédito).

Assim, nunca deixe a sua conta bancária a negativo no final do mês, e sobretudo se pensa que não vai conseguir continuar a pagar as prestações de um crédito, fale com o banco. Renegoceie o crédito ou consolide. Mas nunca entre em incumprimento.

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3

Reduza a taxa de esforço

A taxa de esforço é a percentagem do rendimento familiar que vai dedicar ao pagamento das mensalidades do crédito. Quanto maior for esta percentagem, mais alto é o risco de um dia deixar de ser capaz de cumprir os pagamentos, o que significa que o banco vai ter de encontrar uma compensação para este risco e carregar no spread.

Se conseguir manter a taxa de esforço abaixo dos 20% do seu orçamento familiar, o banco agradece-lhe com um spread mais baixo. Para chegar a este valor pode jogar com os prazos do crédito – mas mantenha presente que o alargamento do prazo pode fazer subir outras taxas, como a dos juros, e deixar de compensar.

4

Não deixe o LTV passar os 60%

O LTV, a sigla inglesa de “Loan-to-Value”, é importante na negociação do spread do crédito habitação.

O LTV não é mais do que a percentagem que o dinheiro emprestado representa do total do valor de avaliação do imóvel. Vamos simplificar: se, para uma casa avaliada em 100.000€, pedir ao banco um empréstimo de 50.000€, o seu LTV é de 50%.

Um LTV abaixo dos 60% é praticamente um negócio sem riscos para o banco: se deixar de pagar as mensalidades, o banco penhora-lhe o imóvel e não tem dificuldade nenhuma em vendê-lo por um valor que cubra a dívida em atraso. A vantagem disto é a que já sabemos: um risco menor leva o banco a aceitar conceder-lhe um spread mais baixo do que o habitual.

5

Peça mais dinheiro (com cuidado)

Como atrás referimos, franzimos o sobrolho a esta solução, mas ela existe e por isso temos de mostrá-la. Em alguns bancos, quanto mais alto for o montante que pede emprestado, mais fácil é conseguir um spread mais baixo.

O objetivo deste jogo é levá-lo a pedir mais dinheiro, deixando-o “preso” ao banco por mais tempo ou a pagar mensalidades maiores. Veja o exemplo que apresentámos,  quanto mais pedir ao banco mais vai pagar de spread (mesmo que a percentagem desse spread seja mais baixa).

Já faz mais sentido, não faz?

Mas tenha cuidado. Pedir mais dinheiro ao banco significa ter de devolver mais, com mais juros, mais spread, mais seguros… enfim, uma TAEG maior. Vale mesmo a pena sacrificar a TAEG para conseguir um spread mais baixo? Temos sérias dúvidas.

6

Subscreva produtos associados

Se já passou pelo processo de pedir um crédito ao banco, certamente já conhece a lenga-lenga: o spread é este, mas se subscrever um Seguro de Vida neste banco consegue um spread mais baixo. Ao subscrever também um Seguro Multirriscos, o spread desce ainda mais. Se ainda criar uma conta para cada elemento da família, o spread desce ainda mais!

A subscrição de produtos associados pode ser um bom negócio e ajudar a conseguir um spread mais baixo para o seu crédito. No entanto, mais uma vez é preciso fazer contas: se o que poupa no spread vai ser superado pelo que gasta a mais nos produtos associados, então mais vale ficar como está.

Reduzir o spread em créditos que já existem

Lá porque assinou o contrato, não significa que a negociação acabou ali! Mesmo depois de ter contratado um crédito ao seu banco, pode voltar a negociar as condições regularmente. Conforme o mercado evoluir e dependendo do rigor com que cumpre as suas obrigações, pode pedir ao banco uma revisão do spread.

Para esta renegociação ajuda se tiver amortizado parte do empréstimo. As amortizações mostram ao banco que tem vontade de pagar tudo e só vai falhar se acontecer uma tragédia. A partir daqui, a canção é a mesma: risco mais baixo, spread mais baixo.

Negociar com bancos nunca é fácil e é preciso fazer muitas contas. Ainda assim, o spread é o elemento mais fácil de alterar, porque não é mais do que a margem de lucro do banco. Se vai tentar negociar um crédito e quer espremer o mais que pode, aponte as armas ao spread e não tenha medo de pôr os bancos a competir uns com os outros. O mercado é mesmo assim!

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O banco pode aumentar o spread em créditos que já existem?

Pois, de facto pode, mas só em determinadas condições.

Como vimos, o spread resulta de uma negociação que fez com o banco. Assim, o banco não pode alterar o spread unilateralmente, ou seja sem o seu consentimento.

Mas existem duas situações em que o pode fazer:

  • Se incumprir nas prestações do seu crédito;
  • Se, tendo o spread sido negociado com base na contratação de alguns produtos complementares (e que constam do contrato) deixar de os subscrever, como deixar de ter o ordenado domiciliado no banco ou fazer o Seguro de Vida noutra seguradora (no caso do crédito habitação). 
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