Miguel Pinto
Miguel Pinto
14 Ago, 2026 - 15:00

Alegrete: a aldeia alentejana suspensa entre o castelo e a serra

Miguel Pinto

Um passeio até Alegrete é uma forma de ver um outro Alentejo, com paisagens serranas e histórias de reis, rainha e conquistas à espada.

Vista de Alegrete

Alegrete é uma pequena vila do distrito de Portalegre, empoleirada numa colina a cerca de 500 metros de altitude, no coração do Parque Natural da Serra de São Mamede.

Quem chega até aqui encontra ruas estreitas, casas caiadas de branco com faixas de cor ocre, um castelo que domina a paisagem e uma tranquilidade que raramente se encontra tão perto de uma estrada principal.

A cerca de 20 minutos de carro do centro da cidade e muito próximo da fronteira com Espanha, a vila é um ponto de passagem natural para quem visita outras povoações históricas da região, como Marvão, Castelo de Vide ou Elvas.

A forma mais prática de chegar é de automóvel, seguindo pela estrada M517, que liga Portalegre a Alegrete e, mais adiante, a Espanha.

A vila fica integrada no Parque Natural da Serra de São Mamede, pelo que a viagem já é, por si só, parte da experiência, entre campos alentejanos, montado e, à medida que se sobe em altitude, uma paisagem cada vez mais serrana.

Alegrete: uma história moldada pela fronteira

A origem exata de Alegrete perde-se algures entre lendas e vestígios arqueológicos. Há registo de ocupação da zona desde o Paleolítico, com destaque para a jazida pré-histórica do Porto da Bôga e para uma anta na Herdade da Falagueira.

Ao longo dos séculos, acredita-se que por aqui passaram romanos, suevos, alanos e vândalos, embora as primeiras referências escritas à povoação só surjam a partir do século V.

O momento decisivo da história de Alegrete acontece com a Reconquista Cristã, quando D. Afonso Henriques recupera a região, possivelmente por volta de 1160.

Mais tarde, D. Dinis manda erguer o castelo, reforçando o papel da vila como ponto estratégico de defesa junto à fronteira com Castela.

Durante a Guerra da Restauração, no século XVII, a fortificação volta a ganhar importância, disponibilizando-se para a defesa do reino.

Como aconteceu com tantas outras vilas raianas, a paz trouxe também um declínio gradual da importância estratégica de Alegrete e, com ela, a perda progressiva de população.

Foi sede de concelho até 1855, ano em que este foi extinto e integrado no de Portalegre. Hoje, a freguesia conta com pouco mais de mil habitantes, mas conserva intacto o traçado medieval e uma identidade muito própria.

O que ver em Alegrete

igreja em alegrete

Não é preciso muito tempo para conhecer o castelo e o centro histórico com calma. mas há mais atrações a não perder.

O castelo, o ex-líbris da vila

O Castelo de Alegrete é o principal motivo de orgulho da povoação e o ponto de vista mais procurado por quem visita. Mandado construir por D. Dinis no início do século XIV, terá sido erguido sobre uma fortificação anterior, de origem romano-árabe.

As muralhas ameadas, reforçadas por torres cilíndricas, oferecem hoje uma vista panorâmica sobre toda a paisagem alentejana e sobre a Serra de São Mamede.

A visita é livre e gratuita, o que faz deste monumento uma paragem obrigatória em qualquer roteiro pela região.

Igrejas, capelas e torre do relógio

Dentro do antigo burgo medieval, no Largo da Igreja, encontra-se a Igreja Matriz de Alegrete, dedicada a São João Baptista e erguida em estilo maneirista no século XVII. Perto dali, a Igreja da Misericórdia, do mesmo período, reúne três altares numa única nave.

Vale ainda a pena reparar na Torre do Relógio, também do século XVII, um dos edifícios mais emblemáticos da vila, e nas Capelas de São Pedro e de Nossa Senhora da Lapa, esta última encastrada numa rocha, junto a Besteiros, e associada a uma lenda de um cavaleiro medieval.

Um passeio pelas ruas

Mais do que qualquer monumento isolado, o verdadeiro encanto de Alegrete está em perder-se pelas suas ruas estreitas e sinuosas.

As casas simples, caiadas de branco, escondem por vezes pormenores surpreendentes, como portas de influência gótica.

O Coreto, já do século XX, na entrada da vila, é um bom ponto de partida para o passeio e um local habitual de estacionamento para quem chega de carro.

Natureza: Parque Natural da Serra de São Mamede

Rotas do contrabando em Mértola

Alegrete está integrada no Parque Natural da Serra de São Mamede, uma das áreas protegidas mais ricas do território português a sul do Tejo, com uma enorme diversidade geológica e paisagística.

A partir da vila parte um trilho pedestre com cerca de 11 quilómetros, considerado exigente, que atravessa açudes, levadas, estevais, cerejeiras e amieiros.

Existem ainda percursos mais curtos e acessíveis, como o Caminho do Vigia, com vistas sobre a vila e o parque, ou o Percurso do Contrabando, que recorda a história das travessias clandestinas entre Portugal e Espanha.

A poucos minutos de carro, junto à estrada M517, encontra-se a Cascata do Pego do Inferno, alimentada pela ribeira de Arronches.

É um dos segredos mais bem guardados da região, fácil de alcançar e com uma piscina natural que convida a um mergulho nos dias mais quentes.

migas alentejanas
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O que comer em Alegrete

Nenhuma visita ao Alentejo estaria completa sem passar pela mesa. Em Alegrete e nos restaurantes da região prova-se uma gastronomia genuína e reconfortante, com destaque para o porco preto, os enchidos tradicionais, as migas alentejanas acompanhadas de carne de porco frita e a açorda, feita à base de pão, azeite, alho e coentros.

O ensopado de borrego é outro dos pratos típicos mais procurados, tal como os doces conventuais, muitas vezes preparados a partir de receitas transmitidas de geração em geração.

Aldeias e destinos próximos

A localização de Alegrete torna-a um excelente ponto de partida para explorar outras povoações do Alto Alentejo. Marvão e Castelo de Vide, ambas com centros históricos muito bem preservados, ficam a curta distância e figuram entre as vilas mais visitadas da região.

Perto dali, em Arronches, a aldeia de Esperança merece igualmente uma visita demorada. Já Portalegre, sede de concelho, reúne outros pontos de interesse, como a Sé Catedral e o centro histórico da cidade.

Vai a Alegrete? Tome nota destas dicas

  • Localização: freguesia do concelho de Portalegre, no distrito de Portalegre, a cerca de 20 minutos do centro da cidade.
  • Melhor forma de chegar: automóvel próprio, pela estrada M517.
  • Melhor altura para visitar: a primavera e o outono oferecem temperaturas mais amenas para caminhadas; o verão é ideal para aproveitar as piscinas naturais da região.
  • O que não perder: o Castelo de Alegrete, a Igreja Matriz, a Torre do Relógio e a Cascata do Pego do Inferno.
  • Duração recomendada: meio dia é suficiente para percorrer a vila com calma; um dia inteiro permite ainda explorar os trilhos e as cascatas da Serra de São Mamede.
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