Share the post "Bom Jesus: o elevador histórico de Braga que sobe uma encosta com a força da água"
Subir o Bom Jesus do Monte a pé tem o seu encanto, mas também exige algum fôlego. São centenas de degraus, fontes, capelas e patamares que convidam a parar pelo caminho. Existe, contudo, uma alternativa que transforma a subida numa experiência por si só. Falamos do Elevador do Bom Jesus, em Braga, um funicular histórico que continua a transportar visitantes encosta acima, com a mesma lógica engenhosa que o tornou pioneiro há mais de um século.
Classificado como Património Mundial da UNESCO desde 2019, o Santuário do Bom Jesus do Monte é um dos lugares mais emblemáticos do Minho. Combina arquitetura religiosa, paisagem, jardins e uma notável obra de engenharia, compondo um cenário onde a espiritualidade e o prazer de passear se encontram sem grande esforço. E vale a pena visitar mesmo para quem não tem especial interesse em monumentos religiosos.
Bom Jesus é um elevador que remonta a 1882

A história começa no século XIX, quando o aumento do número de visitantes tornou evidente a necessidade de facilitar o acesso ao santuário. Subir a encosta a pé fazia parte da experiência, mas nem todos tinham pernas para tantos degraus. A alternativa dos veículos puxados por cavalos também tinha as suas limitações numa subida tão íngreme.
Foi neste contexto que o empresário bracarense Manuel Joaquim Gomes avançou com a construção de um elevador funicular, projetado pelo engenheiro suíço Nikolaus Riggenbach, com a colaboração técnica do engenheiro português Raul Mesnier du Ponsard. As obras começaram em março de 1880 e, a 25 de março de 1882, o elevador foi inaugurado. Era o primeiro funicular construído na Península Ibérica.
Mas o mais curioso não é a idade. É a forma como funciona. Ao contrário dos elevadores modernos, que dependem de motores elétricos para movimentar as cabinas, o Elevador do Bom Jesus utiliza um sistema de contrapeso de água. As duas cabinas estão ligadas por um cabo e circulam em sentidos opostos.
Na cabina que se encontra no topo, acrescenta-se água a um reservatório para aumentar o peso; a gravidade faz o resto, permitindo que essa cabina desça e puxe a outra para cima. Quando chegam às respetivas estações, o processo repete-se.
Parece simples quando explicado assim. Na prática, é uma solução de engenharia notável, concebida numa época em que a sustentabilidade ainda não era uma palavra omnipresente nos discursos públicos.
O percurso tem cerca de 274 metros e vence um desnível de aproximadamente 116 metros. O elevador mantém o princípio de funcionamento original e é considerado o funicular mais antigo do mundo ainda em serviço a utilizar o sistema de contrapeso de água. Uma verdadeira peça de património industrial que, em vez de ficar encerrada num museu, continua a cumprir a sua função.
O que ver no Bom Jesus do Monte depois da subida

Chegar ao topo é apenas o princípio do passeio. O conjunto monumental estende-se por uma encosta arborizada e reúne vários pontos de interesse que merecem ser descobertos sem pressas.
A Basílica e o escadório monumental
O primeiro ponto de paragem é a Basílica do Bom Jesus do Monte, cuja construção decorreu entre 1784 e 1811, segundo o projeto do arquiteto Carlos Amarante.
A fachada neoclássica, marcada pela simetria e pela imponência, contrasta com a vegetação que envolve o santuário. Depois, há o escadório. E não é um escadório qualquer.
A longa sequência de degraus, capelas, fontes e estátuas organiza-se num percurso religioso que representa a Via-Sacra.
Entre os elementos mais conhecidos encontram-se os Escadórios dos Cinco Sentidos, com fontes e figuras alegóricas associadas à visão, audição, olfato, paladar e tato, e os Escadórios das Três Virtudes, dedicados à fé, esperança e caridade.
Mesmo para quem não percorre o caminho numa perspetiva religiosa, a riqueza dos pormenores é difícil de ignorar. Vale a pena observar as esculturas, reparar na água que corre pelas fontes e olhar para trás de vez em quando.
O santuário foi inscrito na Lista do Património Mundial da UNESCO em 2019, reconhecimento que valoriza não apenas os edifícios, mas também a relação entre arquitetura, natureza e paisagem.
Jardins, gruta e lago
Nem tudo no Bom Jesus exige atenção à história ou à arquitetura. Uma parte importante do encanto está nos jardins e nos caminhos que serpenteiam pelo parque.
A gruta é outro dos pontos a incluir no passeio, sobretudo para quem gosta de descobrir os elementos menos óbvios de um lugar. E, mais abaixo, o lago acrescenta um ambiente quase romântico ao conjunto.
Quando o serviço está disponível, é possível fazer um pequeno passeio de barco a remos. Uma atividade simples, sem grande aparato, que resulta particularmente bem em família ou numa tarde a dois.
A Confraria do Bom Jesus disponibiliza informações sobre os horários e preços dos barcos, que convém confirmar antes da visita.
Bom Jesus e ver Braga por um canudo

A expressão popular «ver Braga por um canudo» está também associada a este lugar. No Bom Jesus encontra-se um monóculo de observação que permite espreitar a cidade em detalhe, como se a paisagem fosse uma imagem aproximada dentro de uma moldura.
É uma curiosidade que costuma despertar a atenção dos visitantes, mas a vista panorâmica não depende desse instrumento.
Em dias limpos, a posição elevada do santuário oferece uma perspetiva ampla sobre Braga e a paisagem envolvente.