Share the post "“Falo galego, fala-me português”: a campanha que quer pôr fim ao portunhol entre Portugal e a Galiza"
Todos os verões, milhares de portugueses atravessam a fronteira rumo à Galiza em busca de praias atlânticas, marisco fresco e paisagens que lembram o norte de Portugal.
E, quase sempre, acontece o mesmo fenómeno linguístico. Mal chegam ao outro lado do Minho, muitos portugueses trocam automaticamente a sua língua materna por uma mistura improvisada de português e espanhol, o chamado “portunhol”.
A ideia é facilitar a comunicação, mas, na prática, gera o efeito contrário e é precisamente isso que uma nova campanha galega quer mudar.
A iniciativa foi lançada pela Associaçom Galega da Língua (AGAL), uma associação sem fins lucrativos fundada em 1981, e arrancou oficialmente a 25 de julho, Dia Nacional da Galiza.
O mote é que cada pessoa fala a sua própria língua, sem necessidade de a adaptar ou de recorrer ao castelhano.
Galiza e Portugal: um destino comum

A primeira ação visível da campanha passou por camisolas com o logótipo do projeto, pensadas para serem usadas por pessoas galegas nas suas deslocações a Portugal.
As peças estiveram à venda no posto da AGAL durante o Festigal e esgotaram no mesmo dia, uma reação que apanhou a própria organização de surpresa.
O presidente da associação, Jon Amil, admitiu estar totalmente surpreendido, uma vez que não esperava uma adesão tão grande.
Nos próximos meses, a campanha vai continuar a crescer, com novas camisolas, crachás e outro material promocional, além de uma aposta nas redes sociais, com vídeos protagonizados por figuras da cultura e da internet lusófona.
Portugueses mudam para portunhol sem perceberem
A explicação da AGAL não tem nada de acusatório. Segundo a associação, a maior parte dos falantes de português desconhece a realidade linguística galega e não sabe que existe uma continuidade linguística entre as duas margens do rio Minho.
É que o galego e o português nasceram da mesma raiz medieval, o galego-português.
Por isso, quando um português ouve alguém falar galego, tende a interpretar esse som como uma tentativa “mal conseguida” de falar espanhol ou português, e reage tentando facilitar a comunicação através de uma mistura de línguas.
O resultado é irónico e em vez de duas pessoas a comunicarem cada uma na sua língua original, entra em cena uma terceira variante artificial, que não é nem uma coisa nem outra. A campanha tenta inverter esta lógica.
- Quando uma pessoa galega visita um país lusófono, deve ser reconhecida como falante de galego, e não como alguém que tenta, sem sucesso, falar português.
- Quando uma pessoa lusófona visita a Galiza, deve sentir-se à vontade para manter o português, com a garantia de que será compreendida sem qualquer esforço adicional.
Galego e português: línguas com origem comum

A base científica da campanha assenta na proximidade histórica entre as duas línguas.
Galego e português derivam ambos do galego-português medieval, falado na região noroeste da Península Ibérica antes da separação política entre o Reino de Portugal e a Galiza.
Essa raiz comum explica o elevado grau de intercompreensão que ainda hoje existe entre falantes das duas línguas, mesmo sem qualquer preparação prévia.
Segundo a AGAL, basta falar de forma natural e pausada para que a comunicação flua sem sobressaltos, sem necessidade de recorrer ao espanhol ou a qualquer forma híbrida.
É esta convicção que sustenta o convite central da campanha de manter a própria língua, que é, no fundo, a forma mais simples, e mais respeitosa, de comunicar.
A associação defende ainda o chamado reintegracionismo, corrente que entende o galego e o português como duas variantes da mesma língua histórica, separadas apenas por razões políticas ao longo dos séculos.
É também por essa razão que a AGAL utiliza, nos seus próprios textos, uma ortografia mais próxima da tradição galego-portuguesa do que da norma oficial galega atual, mais influenciada pelo castelhano.
Galiza e Portugal: época alta de turismo
O momento escolhido para a campanha não é casual. O fluxo de visitantes entre Portugal e a Galiza intensifica-se todos os anos durante o verão, com milhares de portugueses a atravessar diariamente a fronteira para fazer compras, passar o dia na praia ou simplesmente conhecer cidades como Vigo, Baiona ou Santiago de Compostela.
É precisamente neste contexto de proximidade quotidiana que o hábito do portunhol mais se instala e onde a campanha da AGAL espera fazer mais diferença.
Uma mensagem de dois sentidos
Talvez o aspeto mais interessante da campanha seja o facto de o pedido funcionar nos dois sentidos da fronteira. Não se trata apenas de pedir a portugueses que oiçam galego sem mudar de língua.
A AGAL quer também que a Galiza seja percebida como um território acolhedor para todas as pessoas lusófonas, onde é possível visitar, comprar ou simplesmente conversar em português e ser plenamente compreendido, sem qualquer necessidade de adaptação.
No fundo, a proposta é simples e em vez de duas línguas se diluírem numa terceira, artificial, cada pessoa mantém a sua identidade linguística e a proximidade entre Portugal e a Galiza sai reforçada, não apagada.