Miguel Pinto
Miguel Pinto
08 Out, 2026 - 14:00

Levada de Piscaredo: trilho histórico entre água, floresta e os moinhos de Mondim de Basto

Miguel Pinto

Descubra a Levada de Piscaredo, em Mondim de Basto. Um trilho de 8,8 km entre rios, bosques, moinhos e séculos de história.

levada de piscaredo

A água é a verdadeira protagonista da Levada de Piscaredo. Corre junto ao trilho, desaparece por momentos entre a vegetação, reaparece mais adiante e acompanha o caminhante durante boa parte de um percurso que junta natureza, engenharia tradicional e memória rural.

O trilho Levada de Piscaredo percorre cerca de 8,8 quilómetros entre o lugar das Mestras, em Vilar de Ferreiros, e a vila de Mondim de Basto.

É um percurso linear, de pequena rota e dificuldade baixa, com desníveis pouco significativos. No papel, parece uma caminhada relativamente simples. E é. Mas isso não significa que se deva caminhar de olhos postos apenas no destino.

Ao longo da levada surgem zonas junto a pequenas ravinas e precipícios que exigem atenção, sobretudo em locais mais estreitos ou com o piso húmido.

Levada de Piscaredo: séculos de história

A história da Levada de Piscaredo recua até ao século XIII, ao reinado de D. Afonso II. A sua origem está ligada à necessidade de levar água até aos campos agrícolas de Mondim de Basto.

Segundo a tradição local, os proprietários dos terrenos de Mondim deslocaram-se até às Mestras, na confluência dos rios Cabrão e Cabril, para procurar uma solução para a escassez de água.

A história conta ainda que outras povoações disputavam o mesmo recurso e que os trabalhos para conduzir a água começaram a partir de diferentes pontos.

Os habitantes de Mondim terão conseguido chegar primeiro e aproveitar uma cota favorável para construir a levada.

A primeira estrutura era bastante mais rudimentar. A levada era feita em terra batida, solução que apresentava, naturalmente, vários problemas de conservação e de impermeabilização.

Nos anos de 1960 e 1961, a estrutura foi totalmente reconstruída com lajes de granito, configuração que permanece visível atualmente.

Levada de Piscaredo: onde começa o percurso?

piscaredo

O percurso oficial começa no lugar das Mestras, na freguesia de Vilar de Ferreiros, junto à confluência do rio Cabrão com o rio Cabril.

O acesso é feito normalmente até à Pedreira, seguindo depois a pé por um caminho largo e de inclinação suave até às Mestras. Esta ligação acrescenta cerca de 1,2 quilómetros até à levada.

Nas Mestras encontra-se um açude e um antigo moinho, além de algumas habitações. Um dos elementos mais curiosos deste início de caminhada são as chamadas poldras que permitem atravessar o rio Cabril.

São cerca de 20 blocos de pedra dispostos para facilitar a passagem e uma delas apresenta a data de 1890 gravada.

É um daqueles pormenores que facilmente passam despercebidos. E seria pena.

Depois da travessia, surge uma pequena levada que conduz até ao açude onde começa propriamente a Levada de Piscaredo.

Esta estrutura funciona como uma espécie de transvase tradicional, captando água do rio Cabrão a partir de outro açude situado cerca de 340 metros a montante.

Construída em placas de granito ligadas por argamassa, apresenta aproximadamente 45 centímetros de largura e 30 centímetros de profundidade.

Uma obra de engenharia escondida no bosque

A Levada de Piscaredo não é apenas um elemento cénico. É uma obra de engenharia hidráulica tradicional que foi pensada para vencer o terreno aproveitando a curva de nível.

Apresenta inicialmente cerca de 70 centímetros de largura e 40 centímetros de profundidade, podendo chegar a aproximadamente um metro de largura em alguns pontos.

Pelo caminho, atravessa uma trincheira, pequenas ribeiras e um túnel antes de conduzir as águas do Cabril e do Cabrão até aos antigos moinhos de Piscaredo.

É precisamente aqui que a caminhada ganha outra dimensão. O visitante deixa de olhar apenas para uma levada antiga e começa a perceber a lógica de um sistema agrícola inteiro.

Chegou a contar com cerca de 15 a 20 nascentes pertencentes ao sistema, embora muitas tenham deixado de alimentar o regadio na sequência das alterações provocadas por obras posteriores.

Vista da cascata das fisgas de ermelo
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Os “olheiros” e a divisão da água

A gestão da água tinha regras próprias. A Levada de Piscaredo dispunha de um “olheiro”, responsável por vigiar e repartir a água pelos regantes, e existia um regulamento que passou a integrar as posturas camarárias a partir do século XVIII.

A distribuição não era deixada ao acaso. Existiam 17 “andadas”, correspondentes aos proprietários que participaram na construção da levada, e o sorteio era realizado no dia de São João, a 24 de junho.

Também podia ser leiloado meio-dia de água, com a receita destinada às obras de reparação e conservação.

O regulamento determinava, por exemplo, que as águas não fossem cortadas antes dos moinhos de Piscaredo e que uma determinada quantidade continuasse a correr pelo ribeiro que atravessava Mondim. Uma telha cheia era usada como referência para esse caudal.

Dos moinhos de Piscaredo até Mondim de Basto

ponte do trilho do piscaredo

A levada termina junto aos moinhos de Piscaredo, atualmente em ruínas. A caminhada, porém, ainda não acabou.

A partir deste ponto, o PR2 segue pelos antigos caminhos utilizados pelos moleiros e pelas populações que se deslocavam aos moinhos para transformar o grão em farinha.

É uma mudança discreta, mas interessante: depois de vários quilómetros a caminhar literalmente ao lado da água, o percurso começa a revelar as antigas ligações entre as aldeias e a vila.

O trilho entra em Mondim de Basto entre a escola secundária e os bombeiros voluntários e termina no parque-jardim da vila, a cerca de 190 metros de altitude.

No total, o PR2 tem cerca de 8,8 quilómetros, uma duração prevista de 2 horas e 30 minutos, dificuldade baixa e cerca de 110 metros de desnível acumulado.

A altitude varia aproximadamente entre os 300 metros nas Mestras, os 250 metros junto aos moinhos de Piscaredo e os 190 metros no parque-jardim de Mondim.

A Levada de Piscaredo é, no fundo, muito mais do que um trilho pedestre em Mondim de Basto. É uma caminhada pela relação antiga entre uma comunidade e a água.

Está tudo ali, misturado. O granito da levada, o curso do Cabril, as árvores, os moinhos abandonados e os caminhos dos antigos moleiros que contam partes diferentes da mesma história. E a água continua a correr.

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