Portugal já não perde a corrida à longevidade, mas sim a corrida à saúde. Segundo o Eurostat, a esperança de vida à nascença no país estava, em 2024, nos 82,5 anos, um valor estável face ao ano anterior e acima da média da União Europeia. O problema está no que acontece depois: dos anos que ganhámos, uma parte cada vez maior é vivida com doença crónica, incapacidade ou dependência de cuidados continuados.
Um novo relatório internacional da Zurich Insurance Group, The Value of Chronic Care, junta-se agora a esta conversa com dados que tornam o fenómeno difícil de ignorar. A consequência é médica, mas sobretudo, financeira: mais anos de doença significam mais anos sem salário completo, mais despesas de saúde por conta própria e mais pressão sobre quem cuida.
O retrato oficial: mais anos, mas com saúde a menos
Os números nacionais confirmam a tendência internacional. De acordo com dados citados a partir do INE e do Eurostat, os anos de vida saudável em Portugal rondam os 58 anos, cerca de seis anos abaixo da média europeia. Ou seja, de uma vida com mais de 82 anos, só pouco mais de sete em cada dez são vividos sem limitações moderadas ou graves de saúde. O resto, mais de duas décadas, em média, é vivido a gerir uma ou mais doenças de longa duração.
É exatamente esta transição que o relatório da Zurich descreve à escala da OCDE: cada vez menos pessoas morrem prematuramente, mas cada vez mais vivem décadas com diabetes, doenças cardiovasculares, problemas de saúde mental ou doenças músculo-esqueléticas. O peso da doença deslocou-se da mortalidade para a morbilidade e os sistemas de saúde, pensados para tratar episódios agudos, têm dificuldade em acompanhar pessoas ao longo de décadas.
O que a doença crónica custa ao seu rendimento
Para uma família portuguesa, esta transição tem um efeito muito concreto: o rendimento deixa de ser garantido a partir do momento em que a doença se prolonga. O subsídio de doença da Segurança Social paga apenas uma percentagem do salário de referência, e essa percentagem varia com a duração da baixa:
- 55% da remuneração de referência até ao 30.º dia;
- 60% do 31.º ao 90.º dia;
- 70% do 91.º ao 365.º dia;
- 75% a partir do 366.º dia.
Isto significa que, mesmo numa baixa prolongada, o trabalhador nunca recebe o salário completo e, findo o prazo do subsídio de doença, pode ainda enfrentar a transição para uma reforma por invalidez, com nova perda de rendimento.
Para quadros clínicos que envolvam perda de autonomia, existe ainda o complemento por dependência da Segurança Social, atribuído consoante o grau de dependência da pessoa. E, desde 1 de janeiro de 2026, ao abrigo do Decreto-Lei n.º 138/2025, quem assume o papel de cuidador informal principal pode ter direito a um subsídio de apoio próprio, pensado precisamente para compensar quem reduz ou interrompe a atividade profissional para cuidar de um familiar.
Nenhum destes apoios substitui o salário perdido na íntegra. Por isso, quanto mais cedo a família perceber esta engrenagem, mais cedo consegue planear-se para ela.
Vale a pena um seguro de saúde ou de doenças graves?
Perante um cenário de décadas com doença possível, muitas famílias perguntam-se se compensa reforçar a proteção privada. Não há uma resposta única, pois, depende do orçamento, da cobertura já garantida pelo empregador e do histórico de saúde de cada pessoa, mas há critérios úteis para decidir.
Um seguro de saúde reduz o peso dos cuidados do dia a dia (consultas, exames, internamentos), mas raramente compensa a perda de rendimento durante uma baixa prolongada. Para isso existem os seguros de doenças graves e os seguros de proteção de rendimento, que pagam um capital ou uma renda mensal caso surja uma doença coberta pela apólice ou uma incapacidade para trabalhar.
Antes de contratar qualquer um destes produtos, vale a pena confirmar três pontos: que doenças e situações ficam efetivamente cobertas, que período de carência se aplica antes de a apólice começar a pagar, e se o valor do capital ou da renda é suficiente para cobrir as despesas fixas da família durante vários meses.
Como preparar as finanças para uma vida mais longa
Nenhuma família controla se vai, ou não, desenvolver uma doença crónica. Mas há decisões financeiras que reduzem o impacto caso isso aconteça:
- Manter um fundo de emergência equivalente a, pelo menos, três a seis meses de despesas fixas ajuda a atravessar os primeiros meses de uma baixa médica sem recorrer a crédito;
- Rever anualmente a cobertura dos seguros de saúde e de vida, muitas famílias mantêm apólices contratadas há anos, com capitais que já não correspondem às despesas atuais;
- Confirmar junto da Segurança Social Direta a que apoios tem direito caso surja uma situação de doença prolongada ou de dependência, em vez de descobrir as regras apenas quando a situação já é urgente;
- Para quem tem pais ou outros familiares mais velhos a cargo, perceber com antecedência o que envolve o papel de cuidador informal, incluindo o novo subsídio em vigor desde 2026, evita que a decisão seja tomada apenas sob pressão.
A medicina resolveu o problema de nos manter vivos por mais tempo. O que ainda não está resolvido, em Portugal e na maioria dos países da OCDE, é como pagar esses anos extra com segurança financeira. Essa parte da equação continua, por agora, nas mãos de cada família.
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Eurostat. (2026). Esperança de vida à nascença aumentou em 2024 pelo terceiro ano consecutivo, para 81,5 anos, na União Europeia.
INE / Eurostat (dados citados via Observatório das Desigualdades). (2025). Anos de vida saudável.
Segurança Social. (2026). Subsídio de doença: regras e valores.
Zurich Insurance Group. (2026). The Value of Chronic Care. https://www.zurich.com/insights/personal/the-value-of-chronic-care