Miguel Pinto
Miguel Pinto
18 Set, 2026 - 15:00

Castelo Novo: uma viagem ao tempo suspenso na Serra da Gardunha

Miguel Pinto

Castelo, pelourinho, fontes centenárias e percursos na natureza para visitar com calma. Uma viagem à aldeia de Castelo Novo.

castelo novo

Nem todas as aldeias pedem para ser descobertas com pressa. Castelo Novo é uma dessas exceções. Encostada à Serra da Gardunha, entre castanheiros, cerejeiras e fontes que nunca se calam, esta aldeia histórica convida a abrandar o passo e a olhar com atenção.

Quem procura um destino que combine património medieval, paisagens de tirar o fôlego e um certo silêncio reparador encontra em Castelo Novo um dos segredos mais bem guardados da Beira Interior.

A aldeia encontra-se a cerca de 703 metros de altitude, entre duas ribeiras que emolduram a povoação num autêntico anfiteatro natural. Fica a 18 quilómetros do Fundão e a cerca de 35 quilómetros de Castelo Branco, o que torna a aldeia um destino perfeito para uma escapadinha de um dia ou para a primeira paragem de um roteiro mais longo pelas Aldeias Históricas de Portugal.

Castelo Novo: uma história que atravessa milénios

Poucas aldeias portuguesas conseguem contar uma história tão longa como a de Castelo Novo. A ocupação humana neste território remonta ao Calcolítico, havendo vestígios que atestam presença na Idade do Bronze, na Idade do Ferro e também durante a ocupação romana.

Prova disso são as termas romanas da Quinta do Ervedal, um dos sítios arqueológicos mais relevantes do município do Fundão.

O nome primitivo do lugar era Alpreada, e a sua existência está documentada já no início do século XIII, no reinado de D. Sancho I.

Mais tarde, a povoação foi doada à Ordem dos Templários (depois Ordem de Cristo ) de forma a garantir o repovoamento da região e a consolidar o domínio dos territórios reconquistados aos mouros.

Reconstrução do castelo

ruínas em castelo novo

Em 1290, D. Dinis mandou reconstruir o castelo, e foi já no reinado de D. Manuel I, em 1510, que a aldeia recebeu alguns dos seus marcos arquitetónicos mais emblemáticos, como o pelourinho e a Casa da Câmara, erguidos em pleno estilo manuelino.

Castelo Novo foi elevada a vila em 1557 e viveu, na primeira metade do século XVIII, um novo impulso construtivo, do qual resultaram a Igreja Matriz, construída em 1732, e o Chafariz da Bica, ambos ostentando as armas de D. João V.

Lenda de Belisandra

É também em Castelo Novo que nasce a lenda de Belisandra, uma jovem acusada de bruxaria que, segundo a tradição popular, salvou a aldeia de uma praga de gafanhotos ao aconselhar os habitantes a fazer uma procissão ao Senhor da Misericórdia.

Reza a história que os insetos caíram mortos ainda a procissão decorria, um episódio que os moradores continuam a celebrar todos os anos, no primeiro domingo de setembro, através de uma procissão que se mantém viva há séculos.

Este passado singular, aliado ao investimento na sustentabilidade e na mobilidade urbana, valeu a Castelo Novo, em 2022, o título de “Melhor Aldeia Turística” atribuído pela Organização Mundial do Turismo (OMT).

O que não pode perder em Castelo Novo

vista aérea de castelo novo

Sendo uma aldeia com um vasto rasto histórico, há alguns marcos que são quase obrigatórios a quem por lá passa.

O castelo e o Cabeço da Forca

No topo da aldeia, a 650 metros de altitude, ergue-se o castelo que dá nome à povoação, com origens que remontam a 1202. É o ponto de organização de todo o povoado e o melhor mirante sobre o anfiteatro natural da Gardunha.

Nas pedras que ainda restam é possível observar os encaixes onde, no passado, se erguia a estrutura da forca.

Não muito longe, à saída da aldeia, o Cabeço da Forca guarda ainda duas caveiras esculpidas na rocha, símbolo da morte associado às execuções ali realizadas.

Largo do Pelourinho

Este largo é, sem exagero, o coração histórico da aldeia. Reúne um conjunto arquitetónico raro que combina os estilos manuelino e barroco: a Casa da Câmara e Cadeia e o Pelourinho, do tempo de D. Manuel I, e o Chafariz D. João V, já do século XVIII.

Vale a pena reparar na fonte de três bicas de estilo manuelino, na fachada da Casa da Câmara.

Igrejas e capelas

A Igreja de Nossa Senhora da Graça, erguida em 1732 sobre as ruínas de um templo mais antigo, é uma paragem obrigatória para quem quer compreender a fé e o quotidiano desta comunidade ao longo dos séculos.

Galeria de Arte Manuela Justino

Dedicada à pintora e escultora natural de Castelo Novo, considerada uma das artistas mais originais da segunda metade do século XX, esta galeria oferece uma pausa cultural inesperada no meio do casario de granito.

No piso superior existe ainda um espaço lúdico com fantoches, pensado para tornar a visita mais interessante às famílias com crianças.

Arquitetura em granito

Mais do que os monumentos isolados, é a própria trama urbana que fascina quem visita Castelo Novo.

As ruas estreitas e sinuosas, as escadas públicas que vencem desníveis, as travessas que atalham caminho e as casas típicas beirãs, com varandas de madeira sobre paredes de granito, compõem um cenário quase intemporal.

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Um passeio pela Serra da Gardunha

serra da gardunha

Castelo Novo não se esgota no património edificado. A aldeia está profundamente ligada à Serra da Gardunha, uma Paisagem Protegida e Sítio da Rede Natura, conhecida pela sua riqueza geológica e pelas formações graníticas moldadas ao longo de milhões de anos.

É comum encontrar pelas encostas da serra blocos de granito com formas curiosas, verdadeiros monumentos naturais que despertam a curiosidade de geólogos e caminhantes.

Um dos pontos mais procurados por quem gosta de caminhadas é precisamente o miradouro junto ao cruzamento para Castelo Novo, um dos mais célebres da Gardunha, de onde se contempla toda a amplitude do anfiteatro natural onde a aldeia se instalou.

Mais acima, rumo ao Castelo Velho, que ultrapassa os mil metros de altitude, o caminho atravessa numerosas nascentes e capta a essência selvagem da montanha, longe de estradas alcatroadas.

Para os mais aventureiros, a serra oferece também percursos pedestres e de BTT bem sinalizados, como a Rota da Gardunha, que atravessa parques de merendas, zonas de escalada equipadas e paisagens que recompensam qualquer subida mais exigente.

Castelo Novo não é um destino para “despachar” numa fotografia rápida. É uma aldeia que pede tempo para percorrer as suas ruas sem pressa, para ouvir as histórias que os mais antigos ainda contam sobre Belisandra e os gafanhotos.

Talvez por isso José Saramago, Nobel da Literatura, tenha deixado escrito que Castelo Novo é “uma das mais comovedoras lembranças do viajante”, um lugar a que talvez se volte, ou talvez não, precisamente porque há experiências que não se repetem.

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