Share the post "Microcarros em Portugal: é a mudança na mobilidade urbana?"
Os microcarros elétricos deixaram de ser uma curiosidade de salão automóvel e passaram a ocupar um lugar concreto nas ruas portuguesas.
Entre o Citroën AMI, o Fiat Topolino, o Microlino e a já consolidada gama de quadriciclos ligeiros da Ligier/Microcar, o mercado nacional tem hoje uma oferta diversificada de veículos pequenos, elétricos e pensados quase em exclusivo para o meio urbano. Mais do que uma moda passageira, estes modelos estão a colocar questões sérias sobre o futuro da mobilidade nas cidades portuguesas.
Do ponto de vista legal, a maioria destes veículos não é classificada como automóvel tradicional, mas sim como quadriciclo ligeiro (categoria L6e) ou quadriciclo pesado (categoria L7e), consoante a potência, o peso e a velocidade máxima. Esta distinção não é um pormenor técnico irrelevante. É precisamente ela que define quem pode conduzir estes veículos, que carta é exigida e em que vias podem circular.
Em termos práticos, um microcarro caracteriza-se por dimensões muito reduzidas (normalmente pouco mais de dois metros e meio de comprimento), dois lugares, motor elétrico de baixa potência, velocidade máxima limitada a 45 km/h e autonomia que ronda os 70 a 100 quilómetros.
São valores que, à primeira vista, parecem modestos, mas que se revelam suficientes para a esmagadora maioria das deslocações urbanas diárias.
Microcarros: modelos no mercado português
O segmento dos microcarros está ainda numa fase inicial em Portugal, mas os sinais de crescimento são evidentes e já há alguns modelos a rolar.
Citroën AMI

O AMI foi o primeiro destes veículos a conquistar verdadeira visibilidade em Portugal. Trata-se de um quadriciclo ligeiro 100% elétrico, com um motor de 6 kW, bateria de 5,5 kWh, autonomia próxima dos 75 km e velocidade máxima de 45 km/h.
O modelo, disponível também em versão Buggy, tem preços a partir de cerca de 7990 euros, o que o torna um dos veículos elétricos mais acessíveis à venda no país.
Pensado tanto para o público mais jovem como para condutores seniores, o Citroën AMI está ao alcance de quem tem 16 anos e carta de condução da categoria AM.
Fiat Topolino

O Fiat Topolino partilha a base técnica do AMI, mas aposta num design de inspiração italiana e numa proposta mais lifestyle, com as versões fechada e Dolcevita (sem portas).
Com 2,53 metros de comprimento, o Topolino utiliza o mesmo conjunto de baterias e o mesmo motor elétrico do AMI (5,5 kWh e 6 kW), com autonomia até 75 km e velocidade máxima de 45 km/h.
O modelo já está disponível em Portugal, com as versões Topolino e Topolino Dolcevita a partilharem o mesmo preço de 9890 euros, além de uma edição especial Vilebrequin Collector’s Edition, mais premium.
É apresentado pela Fiat como a solução ideal para a mobilidade urbana e de curta distância, podendo ser conduzido a partir dos 16 anos com carta AM, e circular em vias reservadas a este tipo de veículos, com exceção de autoestradas e vias equiparadas.
Microlino

Numa posição ligeiramente diferente no mercado, o Microlino aposta num design retro claramente inspirado no clássico BMW Isetta, associado a prestações mais robustas.
Existe em duas classificações distintas (quadriciclo ligeiro (L6e) e quadriciclo pesado L7e), sendo que a versão mais potente pode atingir os 90 km/h. Consoante a configuração de bateria escolhida, a autonomia pode variar entre os 91 e os 230 km.
A chegada do Microlino a Portugal foi apresentada com preços a partir de 16 990 euros, distribuídos pelas versões Urban, Dolce e Competizione. É, por isso, um microcarro claramente posicionado num patamar de preço e de prestações superior ao do AMI ou do Topolino.
Ligier, Microcar e Aixam: a face mais tradicional

Antes de o AMI e do Topolino chegarem às montras, já existia em Portugal um mercado consolidado de quadriciclos ligeiros, associado sobretudo a marcas como a Ligier, a Microcar (do mesmo grupo) e a Aixam.
Estes veículos, com perfis aerodinâmicos e dimensões compactas que escondem um habitáculo relativamente generoso, posicionam-se como carros de cidade práticos, tanto para uso urbano como para deslocações fora da cidade.
Atualmente, gamas como a Myli ou a Dué têm preços a partir de cerca de 14 300 euros, com versões térmicas (a gasóleo) e elétricas disponíveis lado a lado.
Este é, aliás, um pormenor relevante. Ao contrário do AMI, do Topolino ou do Microlino, uma parte significativa deste segmento mais tradicional continua a oferecer motorizações a combustão.
Quem pode conduzir os microcarros em Portugal
A questão da carta de condução é um dos fatores que mais distingue estes veículos dos automóveis convencionais e, também, um dos principais argumentos comerciais junto do público mais jovem.
Em Portugal, a generalidade destes quadriciclos ligeiros pode ser conduzida a partir dos 16 anos, com carta de condução da categoria AM ou B1.
Isto significa que um jovem de 16 anos, sem qualquer carta de automóvel ligeiro, pode legalmente conduzir um AMI, um Topolino ou um quadriciclo Ligier, desde que tenha obtido a categoria adequada.
Para os condutores que já possuem carta de categoria B, a condução destes veículos está, naturalmente, também facilitada.
Microcarros podem transformar a mobilidade urbana
O crescimento deste segmento não é um fenómeno isolado. Cruza-se diretamente com tendências já em curso nas cidades portuguesas, como a redução dos limites de velocidade nos centros urbanos, a criação de zonas de emissões reduzidas e a escassez crónica de lugares de estacionamento.
Estacionamento e ocupação do espaço público. Com pouco mais de dois metros e meio de comprimento, um microcarro ocupa uma fração do espaço de um automóvel tradicional, permitindo, em teoria, estacionar dois ou três destes veículos no lugar de um único carro convencional.
Adequação aos novos limites de velocidade. A velocidade máxima de 45 km/h destes quadriciclos encaixa-se de forma quase natural na tendência de implementação de limites de 30 km/h nos centros urbanos, uma medida já adotada por diversos municípios portugueses.
Custo de aquisição e utilização. Com preços de entrada que rondam os 8000 euros, os microcarros elétricos representam uma das formas mais económicas de aceder à mobilidade elétrica, tanto em termos de compra como de custos de carregamento e manutenção.
Alternativa aos transportes públicos e à partilha de veículos. Em cidades onde a rede de transportes públicos não cobre de forma satisfatória certos trajetos, o microcarro surge como uma alternativa individual, disponível também em esquemas de aluguer de longa duração ou de carsharing.
Limitações do segmento
Nem tudo são vantagens. A autonomia reduzida, a impossibilidade de circular em autoestradas e vias equiparadas e a limitação a dois ocupantes tornam estes veículos claramente inadequados para viagens longas ou para famílias com necessidades de transporte mais alargadas.
Além disso, o nível de proteção em caso de colisão, apesar de superior ao de um motociclo, continua a ser inferior ao de um automóvel homologado segundo as normas de crash-test aplicáveis a veículos ligeiros de passageiros.
Por fim, a rede de assistência e manutenção especializada nestes modelos ainda é mais limitada do que a de marcas generalistas, algo que tende a evoluir à medida que o parque automóvel destes veículos cresce.