Olga Teixeira
Olga Teixeira
27 Mar, 2020 - 17:40

Recessão económica à porta. O que está por vir e como se preparar

Olga Teixeira

A recessão económica provocada pela COVID-19 é inevitável, desconhecendo-se ainda o real impacto da pandemia. Saiba o que pode fazer já para se precaver.

sinais de recessão económica

Em pouco tempo desapareceram os cenários de crescimento e a recessão económica tornou-se iminente. Com o surto do novo coronavírus vieram também contas mais complicadas para as famílias e para o Estado.

A COVID-19 afetou áreas-chave da economia nacional, como o turismo e as indústrias exportadoras, alastrou ao retalho e contamina até as contas públicas.

O aumento da despesa com a saúde e prestações sociais ou a diminuição das receitas com impostos como o IVA e o IRC levarão, certamente, a que o Orçamento de Estado sofra retificações, como já foi admitido pelo Ministro das Finanças.

Nas famílias, a redução do rendimento e o esperado aumento do desemprego fazem antever uma nova redução do consumo privado, que era um forte motor da economia.

Ou seja, nesta época de dúvida, há apenas duas certezas: os sinais de recessão económica são claros e levará algum tempo até que tudo volte ao normal.

PERSPETIVAS (MUITO) POUCO OTIMISTAS

contabilidade

Boletim Económico do Banco de Portugal (BdP) de março de 2020 reconhece que “as perspetivas para a economia portuguesa deterioraram-se abrupta e significativamente em resultado do impacto da pandemia Covid-19”.

A incerteza quanto à sua duração e repercurssões fez com que o BdP optasse por traçar dois cenários para a evolução da economia nacional, “procurando ter em consideração o potencial impacto das políticas adotadas pelas autoridades nacionais e europeias em face do choque”.

A única coisa certa em ambos os cenários é uma recessão económica que, segundo o regulador, deverá ter o seu pico no segundo trimestre deste ano, prevendo-se uma normalização gradual a partir do segundo semestre.

Outra certeza é que não se perspetiva quando será possível retomar a trajetória de crescimento. Em dezembro de 2019, o BdP apontava para um aumento da atividade económica de 1,7% este ano e de 1,6% nos seguintes. 

Três meses depois, tudo mudou.

RECESSÃO ECONÓMICA: OS DOIS CENÁRIOS DO BANCO DE PORTUGAL

Face à incerteza quanto ao que se vai passar não só a nível da evolução da doença, mas também sobre as medidas a tomar pelo Estado e pela própria União Europeia, o Banco de Portugal aponta dois cenários, um base e outro mais adverso.

Mas a instituição alerta também para o facto de que, “dadas as condições de partida e a incerteza que envolve a crise em curso, não podem ser excluídos cenários ainda mais adversos”.

O facto de a economia nacional estar bastante dependente do turismo, as dificuldades que serão sentidas pelas empresas – sobretudo as mais pequenas – e a “elevada percentagem de famílias perto ou abaixo do limiar de pobreza em Portugal” levam a que o regulador entenda que existe pouca capacidade para absorver o choque provocado pela pandemia.

fazer-contas

Cenário base

É o cenário mais otimista e, embora anteveja uma recessão, prevê um impacto económico da pandemia relativamente limitado, admitindo que as medidas adotadas pelas autoridades económicas para conter os danos na economia são bem-sucedidas.

Assim, e segundo o BdP, neste cenário o PIB teria uma redução de 3,7% em 2020. A economia portuguesa apresentaria um crescimento de 0,7% em 2021, existindo, em 2022, uma recuperação mais visível (de 3,1%). 

O impacto no emprego seria também relativamente moderado, com uma queda na ordem dos 3,5% e uma subida da taxa de desemprego para 10,1% em 2020. Nos dois anos seguintes o desemprego seria de 9,5% e de 8,0%, respetivamente, em 2021 e 2022.

Segundo dados do INE, a taxa de desemprego (provisória) em janeiro de 2020 era de 6,9%. O que significa que, mesmo face às melhores previsões, este valor não deverá voltar a ser atingido num futuro próximo.

Ainda de acordo com este cenário de recessão económica o consumo privado, que aumentou 2,3% em 2019, teria uma queda de 2,8% já este ano.

Segundo o BdP, isto reflete, por um lado, “um aumento da poupança das famílias num ambiente de grande incerteza e, por outro, a ligeira queda do rendimento disponível real”.

Ainda assim, acredita-se que o apoio dado pelo Estado, nomeadamente através das medidas já anunciadas, pode ajudar a diminuir a quebra no rendimento das famílias.

No entanto, isso implica mais despesa do Estado. Só em 2020, o consumo público deverá aumentar 2,1% (quando em 2019 subiu apenas 0,8%), como “resultado de um aumento significativo da despesa em saúde suportada pelas administrações públicas”.

Quebras para as empresas

A incerteza gerada pela COVID-19 levará também a uma redução do investimento por parte das empresas, que serão igualmente condicionadas pela quebra acentuada das exportações (menos 12,1%), fazendo-se sentir com grande intensidade no turismo e transportes, setores que serão fortemente afetados pelas limitações à movimentação de pessoas.

As importações terão uma quebra estimada de 11,9%, depois de terem crescido 5,2% em 2019.  

No entanto, e devido à diminuição do preço do petróleo, a balança comercial continuaria excedentária: 2,0% este ano, 2,4% em 2021 e 1,3% em 2022.

Neste cenário de recessão económica, a boa notícia é que a inflação seria baixa: 0,2% em 2020, 0,7% em 2021 e 1,1% no ano seguinte.

Cenário adverso

O BdP traçou igualmente um cenário mais duro, assumindo que o impacto económico da COVID-19 venha a ser mais significativo, como consequência de uma paragem mais prolongada na atividade económica. Tal hipótese conduziria a uma maior destruição de capital e perda de emprego, bem como a uma maior incerteza e turbulência nos mercados financeiros.

Caso estas previsões se materializem, o PIB terá uma diminuição de 5,7% em 2020. No entanto, os próximos dois anos seriam já de recuperação, com a atividade económica a crescer 1,4% em 2021 e 3,4% em 2022.

Neste cenário de recessão económica mais profunda, a taxa de desemprego pode chegar aos 11,7%, descendo um ponto percentual no ano seguinte e passando para 8,3% em 2022.

Já o consumo privado apontaria para uma diminuição de 4,8%, devido ao aumento da taxa de desemprego e a condições financeiras menos favoráveis. 

Com a economia mundial em recessão, as exportações cairiam cerca de 19,1% e as importações 18,7% já este ano.

Os níveis de inflação previstos seriam de -0,1% em 2020, 0,5% em 2021 e 0,7% em 2022.

COMO REDUZIR O IMPACTO DA RECESSÃO ECONÓMICA  

Perante a inevitabilidade de uma recessão económica e mesmo não se sabendo ainda qual será a real dimensão, há medidas que pode começar a tomar, desde já, para que o impacto seja menor.

Assim, e sobretudo se já está a sentir ou prevê uma quebra no seu rendimento, recorra a uma tabela ou a uma app para analisar receitas e despesas e ver onde pode começar a cortar.

Renegociar contratos e créditos ou mudar de fornecedores de telecomunicações ou eletricidade são duas formas simples de gastar menos e de poupar durante esta fase.

como mudar de fornecedor de energia
Veja também Quando e como mudar de fornecedor de energia? Descubra a resposta

Se tinha planeado um grande investimento, e sobretudo se ia recorrer a um crédito para o fazer, talvez seja melhor aguardar um pouco.

É certo que o Banco de Portugal flexibilizou as regras para concessão de crédito às famílias, mas isso é apenas uma forma de fazer com que estas tenham dinheiro imediatamente. Dinheiro que terá de ser devolvido, mais tarde ou mais cedo.  

Se ainda não tem, esta é a melhor altura para criar um fundo de emergência. Há especialistas que apontam para um montante correspondente a três meses de salários ou despesas fixas, outros para seis.

No entanto, e tendo em conta que muitas famílias estão já a sentir uma quebra de rendimentos no imediato, o melhor conselho é que reserve para este fundo aquilo que for possível no seu caso.

Está em teletrabalho? Então procure pôr de lado o dinheiro que gastaria em transportes públicos ou em combustíveis, por exemplo. Não pode ir jantar fora? Coloque essa verba no fundo de emergência.  

Se tem um negócio ou um hobby, pense em como rentabilizá-lo depois de terminadas as restrições de circulação. Se é algo que pode fazer sem sair de casa, então não pense duas vezes em aceitar encomendas, assim elas surjam.

Nesta fase, e para minimizar o impacto que a recessão económica virá a ter no seu bolso e no de todos, a melhor solução passa por gastar menos e de forma ponderada, poupando, desde já, tudo aquilo que puder.

Veja também

Para descomplicar a informação

As informações sobre os temas que envolvem o impacto social do novo Coronavírus são dinâmicas e constantemente atualizadas. Por isso, os conteúdos publicados nesta secção não devem substituir a consulta com profissionais e especialistas, tanto da saúde como do direito e temas afins. Neste projeto, contamos com a parceria da Fidelidade e da Multicare. Saiba mais sobre a parceria.